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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 72

Raízes

António Cagica Rapaz

- Era bonito, não era?

- Como diz, é comigo?

- Sim... queira desculpar, mas aqui, junto a este muro, de repente, senti uma grande saudade da lota. Era bonito, não era? Agora, ao fim da tarde, a fortaleza até me parece escura e triste, um mostrengo inútil.

- Sim, tem razão, é uma tristeza...

- Antigamente a fortaleza abrigava a lota, enquadrava o movimento das barcas, das chatas, dos pescadores, dos vendedores, dos almocreves, estendia uma sombra protectora, era um presépio permanente.

- É verdade, a lota deixou um vazio enorme.

- De cada vez que me sento neste muro, parece-me ouvir ainda vozes cruzadas, a cantilena dos vendedores, os gritos, os dichotes, a grande azáfama da vida arrematada em lotes...

- Ena, o amigo tem veia poética.

- Bem gostaria, bem gostaria, mas mal consigo exprimir o que sinto, o que me ficou de tudo isto, da beleza que Sesimbra encerrava. Já não é a mesma a nossa terra.

- Ah, o senhor é de cá...

- Não, não sou... isto é, nem sei bem...

- Não sabe?

- De facto não nasci em Sesimbra, mas para mim ser é pertencer, é gostar, é estar ligado, é sentir. Para muitas pessoas que cá nasceram, o Macorrilho era apenas um passadiço, ontem destapado, hoje coberto de areia, mas só um passadiço. A lota era aqui, hoje é na doca, tanto faz. Quem nasceu na rua do Norte ou na rua do Saco habituou-se a ter o mar à porta. Por isso, quando saem de casa, mal o olham, se o olham não o vêem e, se o vêem, não o sentem.

- Explique lá isso melhor...

- Olhe, eu não preciso de olhar o mar para saber de que cor está, que aspecto tem. Por exemplo, nas manhãs frescas de Inverno, quando a brisa sopra da terra, ele fica muito azul e enrugado como a pele do tio Vicente Faneca.

- Não sei quem é.

- Eu também não o conheci, já morreu há muito, mas li há tempos uma evocação que hoje me leva a imaginá-lo de barrete preto, bigode, olhar perdido no mar, em tardes de vendaval, nas escadinhas da rua dos Pescadores.

- Ah, já percebi, anda aí literatura caseira...

- É verdade, não nego. Leio tudo o que fala de Sesimbra, assino os dois jornais da terra. Sesimbra, para mim, não foi o acaso de um nascimento, mas uma escolha, uma paixão. Comecei por vir de férias, com os meus pais, depois casei, continuei a vir e acabei por cá comprar uma casinha.

- Temos então um pexito por adopção...

- Sabe, se calhar, o ideal é viver em Lisboa e vir cá, espaçadamente, para saborear em momentos escolhidos, isolados, em escapadelas. Por vezes, ao cair da tarde, sinto como um chamamento do mar. A minha mulher já conhece os sintomas e prepara tudo para virmos. De repente, aí vamos nós, ponte fora, Apostiça abaixo, Cotovia à vista, Sesimbra é já aqui e que bom que é. Assim, contra a corrente, fora do tempo, apanhamos Sesimbra em sossego, desprevenida. Contemplamos o mar, passeamos na orla da noite e depois vamos jantar como dois namorados. Umas vezes ouvindo o murmúrio das vagas e saboreando a sopa rica de peixe do Hélder. Outras vezes, fugimos para o campo e vamos ao São Jorge, à Aiana, conversar com o Zé Martins enquanto a Dona Manuela nos prepara uma deliciosa cataplana. A felicidade é bem capaz de ser isto, momentos como estes, não sei.

- Cá temos outra vez o poeta...

- Com os anos e a leitura dos jornais, passei a conhecer nomes de ruas, nomes de pessoas e até alcunhas. Acho interessante e às vezes apaixonante a forma como certos escritos nos falam das pessoas, nos revelam a alma de Sesimbra, com ternura e poesia. Bem gostaria de ter conhecido o padre João, as armações, as ruas enfeitadas e tantas outras coisas. É verdade...

- Tem razão. E é curioso porque nunca vi as coisas por esse prisma. Bem vê, o meu caso é diferente, eu conheço toda a gente...

- Ah, o senhor é de cá!

- Olhe, já não sei. Para lhe falar com franqueza, depois de tudo o que me disse, já não sei se sou de cá. O meu amigo é muito mais de cá do que eu. E no entanto nasci cá, moro é no campo.

- Felizardo. Desculpe a minha tagarelice, quando gosto não me contenho...

- Eu é que lhe agradeço, aprendi muito. Olhe, se calhar, esta conversa, bem trabalhada, era capaz de dar uma crónica jeitosa.

- Talvez, só que eu a falar ainda dou um jeito, agora a escrever...

1994

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 71

Helder

António Cagica Rapaz

- Dona Cremilde, marque um quarto d’ hora...

Invariavelmente, absorvida pelos cafés e pelas sandes, quando a dona Cremilde se lembrava do bilhar já lá ia meia hora.

Candidamente, nós esquecíamo-nos de perguntar, naturalmente. Era no velho Ribamar, ainda e só café, muito antes de ser o restaurante mais emblemático de Sesimbra.

Não era fácil ser filho do Chagas, poeta da noite, mais sonhador que comerciante, paixão e orgulho ao leme do seu Ribamar onde se cantava o fado e de onde saia o arquinho e balão.

O Hélder cresceu a ver o pai puxar pelo Ribamar, encher Sesimbra de festa, deliciar-se ao microfone, viver em frenesim.

O pai Chagas foi um homem dinâmico e inovador que soube transmitir ao Hélder a vontade de lutar, de progredir na profissão, sem esquecer os prazeres da vida, entre eles a música. Ou não tivesse ele próprio tido uma bela voz...

O aparecimento dos Beatles despertou no Hélder o desejo de fazer música a sério e assim nasceram os Zambras. Foi um período maravilhoso, anos sessenta, com alegria, entusiasmo, num universo de boa camaradagem, cumplicidade e entreajuda, desde o pai Chagas até ao mestre Henrique Sineiro que foi patrocinador, motorista, apoiante da primeira hora e, sobretudo, um grande amigo.

Um acidente de viação frustrou-lhe os planos de entrada na Força Aérea e obrigou o Hélder a enfrentar mais cedo do que previra a vida real. Foi o início da epopeia...

Primeiro, ficou à frente do Ribamar, quatro anos de luta que culminaram com a abertura do Pedra Alta, de sociedade. Depois, foi o novo Ribamar, na marginal, bem de frente para o oceano. Mais tarde, seria a vez do Angelus, em Santana, casa aberta por um antigo empregado do velho Ribamar, nos anos cinquenta, marés da vida.

A carreira profissional do Hélder Chagas é notável, determinação, rigor, bom gosto, simpatia, exigência, qualidade, tudo quanto explica que o seu Ribamar seja um dos 100 melhores restaurantes de Portugal.

Mas o mais valioso é que o Hélder soube fazer-se Homem sem vender a alma por dinheiro, sem esquecer a poesia nem os valores essenciais da vida, os afectos, a dignidade, as raízes. Continua a ter o mesmo olhar bondoso, o mesmo sorriso bonito, certamente feliz por ter conseguido construir o que, a certa altura, decidiu ser a sua carreira, aquilo que o pai sonhou sem ter podido concretizar.

A tia Cremilde continua a cozinhar para o Hélder que, sempre que pode, vai comer com a mãe, para felicidade de ambos. Mal se adivinha nela uma pontinha de orgulho, tanta é a ternura em que envolve o menino...

2000

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 70

O fado

António Cagica Rapaz

Eles conhecem o caminho, aproam à Marisqueira, amarram o cabo a uma mesa, aguentam a abordagem de um ou outro pendura de giga pronta a receber qualquer teca de brandy ou Aveleda, dizem “saúde” várias vezes e, quando a caldeira começa a ferver, levantam ferro, rumo ao Espadarte Clube.

Sobre as magníficas lajes, cadeiras e mesas com velas que emprestam ao ambiente a mortiça luz castiçal das noites de fado em que há no ar o ciúme, a paixão, a navalha e o canalha...

Instalado o rebanho dos turistas, surgem os boémios locais para beber um copo e tentar sacar uma lady, ainda que entradota. Com os copos, a partir da uma da manhã, todas elas têm dezoito anos, afiança o Ernesto Corneta.

Corre-se a cortina e entra o Zé Manel que traz o fatinho azul escuro e gravata. Os guitarristas avançam, o fado instala-se na noite. Os turistas olham com curiosidade, os conquistadores ardem de impaciência.

O Zé Manel, como sempre, canta “É tão bom ser pequenino”. Depois, agarra o copo, molha a garganta e segreda qualquer coisa ao guitarrista. Coloca-se no meio da pista, ar gingão, põe-se em bicos de pés e lança, com desdém “Se queres ir embora, vai”. Claro que ninguém vai porque o Zé Manel tem raça e os turistas aplaudem com calor, Fada very good...

Ainda as palmas não cessaram e já o estrangeirame se vê com uma pandeireta na mão e um reco-reco sobre a mesa. É o folclore que chega, aguardado com ansiedade pelos caçadores especiais que, na penumbra, traçaram o seu plano de ataque.

Mal o António do Porto arranca os primeiros acordes da gaita de beiços, eis que os dados estão jogados e os comandos lançados. Qual suicida, o “Gaivota” é o primeiro. Uma ligeira vénia diante do marido, duas palavras que ninguém entente e a mulher já se levanta para dançar. Elas são civilizadas, simpáticas, desinibidas, é festa, férias são férias. Quando a marcha acaba, a dama não tem tempo de se sentar porque os outros passam ao ataque, todos dançam com a disponível senhora. Agora já não há vénia nem outro protocolo. De braços no ar, aproximam-se da mesa, dançando sozinhos, fazendo o gesto clássico com o dedo indicador a circundar e já está, é à balda, estamos com a nossa gente. O marido, quase grosso, toca desajeitadamente a pandeireta e ri-se com cara de parvo...

Corre-se a cortina e todos os olhares convergem para a porta. Entra o Júlio Silva, o meu rico Júlio, o John Português.

O Zé Manel olha para o Valdemar e diz “Está tudo estragado”.

O Júlio avança, Good night para a direita, Hello para a esquerda e ele aí está na mesa de um casal alemão para aceitar o copo que lhe oferecem. Quando lhe perguntam se vai cantar, franze o nariz, encolhe os ombros e diz que não se sente em forma. O folclore acaba. O Pinhal acende bruscamente uma luz branca e crua, ruidosamente contestada pela assistência, põe de novo o Rose Garden numa rotação errada e alguém grita “Vai pr’a casa, vai”. O Pinhal abala porta fora, sem dar as boas noites ao “Trinitá”...

De novo o fado. Há protestos por parte dos conquistadores que preferem música de dança para tentarem aproximações.

O Zé Manel vai no terceiro parafuso e parece mal disposto.

Lá do fundo, uma voz, “Ó Júlio””.

O Júlio, sorri, falsa modéstia, encolhe de novo os ombros, olha pr’ó Zé Manel, olha pr’ó sô Zé Brás, levanta-se, saúda a plateia que repete “Ó Júlio, ó Júlio” e coloca-se atrás dos fadistas. Afinal, o Júlio sempre vai cantar. Murmura ao ouvido do guitarrista o que todos adivinham e prepara-se para cantar (pois o que havia de ser?) o fado do cigano que matou o cavalo na feira da Agualva. A malta faz coro, o Júlio ganha calor. A certa altura, lá do fundo, uma voz “Ah, fadista!”. Os turistas repetem “Ah, fadista!”, o entusiasmo vai alto. O Júlio ataca com vigor e, quando o cigano se prepara para matar o cavalo, uma voz grita: “Mijão!”.

É o desastre. O Júlio fica branco, o Zé Manel ri-se, as nuvens de fumo parecem de chumbo, o fado seca na garganta do fadista, mata o cavalo, não mata o cavalo? A sua expressão é dura, finca os dedos nas costas dos guitarristas, acaba com o cavalo e vai-se embora. Os turistas olham-se, olham-no, sem compreender, o Júlio está a ferver. De repente, o autor da provocação levanta-se e vai ter com o Júlio.

- Boa noite, ó mestre!

- Ah, foste tu? Julgava que era o “Gaivota”...

E o fado continua, ainda a noite é uma criança, é tudo no gozo, para engatar o Júlio. Às tantas, tudo canta, minha gente. O Zé Manel bisa “É tão bom ser cavalo”, perdão, “É tão bom ser pequenino”, e, quando o “Trinitá” fecha a porta, já o chamador gritou pela companha toda...

1983

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 69

Frank Sintinas

António Cagica Rapaz

Foi o Manel António que me chamou a atenção para o homenzinho discreto, de boné, que guardava as sentinas. De facto, o homem era parecido com o Frank Sinatra, sobretudo de perfil. E desta forma nasceu a figura do Frank Sintinas, assim mesmo, pronunciado à nossa moda, à pexita.

As alcunhas, tão ao gosto da nossa gente, são muitas vezes mordazes, maldosas, cáusticas e raramente exprimem ternura. Neste caso, Frank Sintinas é fruto de inspiração benigna, imagem poética, só entre nós, como para arrancar o homem à banalidade cinzenta de uma existência obscura, através de uma comparação resplendente. Esta alcunha, aliás, nunca chegou a ser divulgada, era apenas uma simpática brincadeira, um sinal de liques, jogo de cumplicidade, sem ponta de maldade. Pelo contrário, o modelo era admirável, Sinatra, o som inesquecível da bossa nova no crepúsculo, naquela hora mágica em que o sol se põe por trás dos mastros altos dos veleiros ancorados na doca, de onde começavam a chegar os veraneantes, lobos do mar raso, vestidos de branco, bronzeados, em busca da noite...

As sentinas são os magníficos azulejos de Sesimbra, testemunhos de um passado que idealizamos, vestígios de um tempo que o ciclone levou e que alguns tentam desenterrar, esgravatando na areia da memória como os pescadores faziam, procurando moedas, fios e medalhas, mal acabava o vendaval.

As sentinas, como o jardim, eram o refúgio de pescadores idosos, remando contra a solidão, tertúlia de nostalgia, loja de companha de velhos de terra. O nosso Frank era o guardião do templo e do tempo, do bom tempo de pescarias fabulosas, do mau tempo de vendavais intermináveis, do tempo que a todos foge em cada maré vazia. O Frank Sintinas, sem saber, era conservador do museu, moderador de debates perpassados de melancolia, o passado eternizado nos azulejos. Frank Sintinas é a ironia inocente que nos leva a contemplar com um sorriso, sem pretensões moralistas, sem dogmas nem ilusões, velhos de terra que nós já somos também...

1992

sábado, 17 de setembro de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 70

Superveniente*
António Cagica Rapaz
Há tempos a minha tia Lucinda fez-me chegar uma mensagem segundo a qual a tia Líbia gostaria de me ver. No universo já meio quimérico das férias da minha meninice, nas Caixas, a tia Líbia não era figura predominante, talvez por morar muito longe da minha casa, aí a uns bons oitenta ou cem metros, o que era considerável na minha minúscula aldeia. O meu centro de gravidade situava-se algures entre a casa do tio Júlio e da tia Clarisse, por um lado, e a do tio Justino e da tia Conceição por outro.
A tia Líbia tinha duas filhas, um filho e um marido epiléptico. O filho, o Bernardino, não era meu companheiro assíduo de brincadeira nem das fainas agrícolas. O nosso relacionamento era mais distante, não havia a intimidade que tinha com o Julinho, por exemplo.
Os anos passaram, a nossa infância ficou mais longe, diluída na ribeira dos Torrões, e só muito mais tarde voltei a encontrar-me com o Bernardino. E se a tia Líbia agora me queria ver tal se deve em grande parte a esse encontro que ocorreu em meados de 1971 no cenário agreste, ventoso, detestável, do Campo de Tiro da Serra da Carregueira.
Depois de Mafra e do Porto, fui ali colocado e designaram-me para chefiar a Unidade de Mobilização que era, no fundo, a secretaria geral da soldadesca ali incorporada.
Está bem de ver que aquilo para mim era chinês, mas tropa é assim, obedece e desenrasca. Felizmente havia o sargento-ajudante Manso que de facto me ajudou muito, apesar de ser um bocado surdo. Ele é que sabia de requerimentos, notas e outra papelada e, graças às suas indicações, lá fui levando a água ao meu moinho, conservando a escrita em dia, ou melhor, em meio dia porque à tarde eu estava autorizado a sair para os treinos do Belenenses.
A certa altura a minha curiosidade foi espicaçada ao verificar que os vários processos de amparo de família que por ali passavam eram todos, mas mesmo todos, sem excepção, arquivados, caixote do lixo. Admirado, perguntei ao Manso o porquê de tal procedimento e ele explicou-me simplesmente, dizendo que não eram supervenientes. Trocado por miúdos significava aquele palavrão que os rapazolas não tinham metido os papéis na devida altura, “atempadamente” como agora se ouve dizer.
Os processos de amparo deviam ser obrigatoriamente apresentados pelos mancebos (assim era designada a carne para canhão) no dia em que iam à inspecção. Ora está bem de ver que, nesse dia, nenhum mancebo, por mais cebo que tivesse entre os dedos do pé esquerdo, tinha o menor conhecimento das leis, regras, disposições ou regulamentos militares.
Sofridos e amargurados eles iam, com o rabo entre as pernas e a pila à mostra, desfilar diante do júri que lhes aplicava sem hesitar o caminho de apurado nos lombos magrizelas. Alguém imaginava que era logo nesse dia que se tratava do processo de amparo? E o que era isso dos processos de amparo? Eles queriam era fugir dali sem olhar para trás.
Segundo acto: o mancebo, transido de frio e medo, era incorporado no Campo de Tiro onde não aparecia como no arraial da festa das Chagas uma loiraça a perguntar “ó simpático, vai um tirinho?”.
Passado algum tempo começaram a ouvir dizer que havia quem saísse da tropa por amparo de pai ou mãe e, vai daí, alguns apressavam-se a falar com o médico de família, iam à Junta de Freguesia e às Finanças e reuniam os documentos todos que entregavam cheios de esperança na tal Unidade de Mobilização. O Manso mandava-os para a Amadora ou para o Quartel General, já não sei bem, e depois voltava tudo para trás com a menção “arquive-se”. Ponto final, morria ali a esperança. Porquê? Porque, como explicava o sargento-ajudante Manso, não eram supervenientes. Queria ele dizer na sua que a doença do pai ou da mãe só podia ser tida em consideração se tivesse acontecido depois do dia da inspecção. Ora praticamente todas as doenças invocadas e atestadas pelos médicos já tinham anos e anos pelo que deviam ter sido expostas no dia da inspecção. Como nunca era, por desconhecimento natural dos rapazes, vinha tudo para trás, arquive-se, caixote do lixo, inapelavelmente.
Como nunca gostei de pactuar com injustiças, resolvi procurar uma solução, uma artimanha para contornar esta legislação monstruosa e viciada. Com algum receio, o Manso lá me bichanou ao ouvido que a única forma era tornar o caso superveniente, ou seja, posterior à inspecção. Tal significava alterar as datas do atestado médico, da Junta de Freguesia, etc.  
Só que sugerir, aconselhar aos rapazes estas falcatruas era um exercício altamente perigoso. Estávamos em 1971 em plena guerra colonial e o risco era enorme, no mínimo prisão de Caxias, forte de Elvas, sei lá, Tarrafal, não faço ideia.
Na altura, para ser sincero, não me lembro se pesei os prós e os contras. Recordo-me de ter telefonado para a Amadora a um tal tenente Luís perguntando se não podíamos dar um jeito, ajudar os rapazes. A resposta foi agressiva, cínica, avisando-me de que não me metesse nisso porque era perigoso e depois se eles não trataram das coisas a tempo era com eles, paciência, que se lixassem. Se já estava indignado mais revoltado fiquei e foi nessa altura que me veio parar às mãos o processo do Bernardino. Eu nem sabia que ele estava lá na Carregueira, mas ao ver o processo lembrei-me dos ataques epilépticos do pai e decidi fazer qualquer coisa, não pensei no risco, procurei apenas ajudá-los, a ele e à família. Porque era justo, eu sabia que era verdade tudo quanto estava no processo. Por isso havia que torná-lo superveniente. Chamei o Bernardino, expliquei-lhe tudo muito claramente e ele lá foi, antes de tudo, falar com o Dr. Leite, o bom doutor de Santana, que lhe aldrabou novo atestado fingindo que a epilepsia do pai era recente. O resto foi só reajustar as datas dos outros documentos e lá voltámos à carga. Agarrei no novo processo e enviei-o com o coração apertado.
Depois dele foram vários, quatro, cinco, não sei ao certo, desconhecidos, não sei se sinceros se golpistas, pouco me importava. Estava ao meu alcance ajudá-los e foi o que fiz, fiz o que pude, despachando vários processos aldrabados, recauchutados, à graça de Deus. Hoje apercebo-me do risco gravíssimo que corri. Mesmo sem denúncia, bastava que alguém se lembrasse de comparar os processos refeitos com os originais para ver que havia aldrabice. E não teria sido difícil saber quem era o responsável.
Felizmente não houve incidentes. Pelo contrário, meses depois recebíamos na Carregueira notas informando que os soldados tal e tal, já colocados noutras unidades, tinham passado à disponibilidade por amparo de pai ou mãe. Eu ficava contente por eles, apesar de não saber quem são.
O Manso, discretamente, sorria-me.
Feliz também ficou a tia Líbia quando o Bernardino disse adeus às armas e voltou para casa. Agradecida, levou um coelho à minha mãe. em parte também o Manso merecia agradecimento. Por isso, de alguma maneira, foi um coelho Manso…
Estes factos são autênticos, poderão ser verificados se no Quartel General restarem arquivos desse tempo. Apetece-me contá-los depois da visita que a tia Líbia me fez na Aiana, para me abraçar com a força dos seus 82 anos de sofrimento e labuta permanentes. E sentida gratidão, decerto.
Hoje tenho uma consciência mais nítida dos riscos enormes que corri. Uma denúncia ou uma olhadela mais atenta aos processos poderia ter tido consequências gravíssimas para mim. Não sei se na altura reflecti seriamente, só sei que senti o dever moral de fazer o que estava ao meu alcance para combater uma dupla injustiça, a guerra e uma regulamentação viciada.
Foi a minha maneira de lutar contra um sistema iníquo e hoje sinto, se não orgulho, pelo menos a consciência do dever cumprido. Estava ao meu alcance e fiz. Não encolhi os ombros nem pactuei activamente como esse tal tenente Luís (por sinal também miliciano), antes agi e, felizmente para aqueles rapazes, com sucesso positivo.
Não me considero um herói, não peço à Câmara uma rua ou beco com o meu nome, basta-me a recordação da emoção da tia Líbia. Por ela e por todas as outras mães valeu a pena.
Mas também é verdade que, apesar de não ter na lapela o emblema nem constar da lista dos heróicos lutadores antifascistas, provavelmente terei feito mais que muitos conjurados da bica e bagaço que andaram tão escondidos em luta clandestina que ninguém deu por eles, ninguém descobriu rasto dos seus actos.
No fundo não mereço recompensa por que me limitei a aldrabar. É certo que se tratava de um poder injusto, mas não é bonito mentir. Por outro lado, a tia Líbia deu-me um coelho, é mais do que suficiente.
E já agora terminemos com um sorriso sobre a atitude de muitas pessoas e com uma alusão à guerra colonial: “Mesmo que viremos a casaca, a gola é nossa…”

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*Publicado em O Sesimbrense de Dezembro de 1995.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 68

Galé

António Cagica Rapaz

Estava-se nos fins da década de 60 e o Desportivo vivia o período mais eufórico da sua existência, numa luta apaixonante para subir à 2ª divisão tendo pela frente o poderoso Farense e atrás de si uma vila inteira louca de entusiasmo e de fé. Era um espectáculo permanente, uma alegria contagiante de toda uma população orgulhosa dos seus rapazes capitaneados pelo lendário Valdemar e embalados pelas melodias do Mário Regalado e seus comparsas que punham Sesimbra a vibrar ao ritmo do “Ribolé, ai leva, leva lé, olha a Sesimbrense, olha a Pastorinha”, festa rija, de sabor autenticamente popular, bem da nossa terra, a cheirar a sardinha assada em ruas perfumadas com alecrim.

A música dos Galés tinha essa coisa maravilhosa que é a pureza, sabia a Sesimbra, tinha a cor do mar, o fulgor do nosso sol, um coro de gaivotas, falava das nossas traineiras, tinha ritmo e raízes, era nossa. Os Galés assentavam arraiais no Café Martelo, na Galé, ao tempo nas mãos do Hermínio Pinhal, antigo jogador do Desportivo, que não se fazia rogado para pegar nos ferrinhos ou dar uns toques na bilha do Mantas...

A Galé é um local privilegiado, primeiro balcão bem de frente para o espectáculo deslumbrante e permanente que é o mar.

Naquele tempo, as barcas e as traineiras vinham, ao cair da tarde, juntar-se diante da lota e era um quadro bonito e cheio de vida, com as cores vistosas das embarcações, as camisolas aos quadrados dos pescadores, o vaivém das chatas, a cantilena dos vendedores, o gelo do Chanoca, o café do Zé Maria, um cenário colorido, o mais belo cartaz de Sesimbra.

Hoje, da Galé, vejo os pescadores que passam com um balde de plástico na mão. Andam devagar como os figurantes de uma peça de teatro que atravessam o palco. Ali em frente, junto ao muro, passam caras conhecidas, casais que não trocam palavra, que cumprem um ritual, como se fossem atrás da procissão, em passo lento, levados pela cadência das ondas.

À boca da noite, o mar fica mais azul e o ar mais fresco. Na varanda da Galé ficamos a sós com o oceano infinito, testemunha do tempo. É a magia do anoitecer, a hora a que, noutro tempo, as mães chamavam pelos filhos que brincavam nas ruas estreitas. O jantar na mesa, a telefonia só conhecia o fado, os barcos baloiçavam docemente em frente à praia. Hoje, da Galé, avista-se o novo pontão que uma traineira dobra no silêncio do crepúsculo, uma luzinha no mastro.

Na linha azul do horizonte recorta-se a sombra da “Pastorinha” e, ao longe, ouve-se a melodia suave da gaita de beiços do bom António do Porto. Cai a noite na Galé...

1994

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 69

Antero do Quintal*

António Cagica Rapaz

A língua portuguesa é um mar profundo onde por vezes naufragamos quando nos aventuramos insuficientemente apetrechados, mas é também um mar rico, com marés cheias de termos e expressões curiosas, interessantes, por vezes carregados de ambiguidade e duplos sentidos que nos atiram de gargalhete para a praia da malandrice e do trocadilho.

Costumo ler com muito agrado os escritos esclarecedores do Dr. Manuel Nabais no Jornal de Sesimbra e aplaudo a feliz iniciativa que tomou em tão boa hora.

A sua recente evocação da figura de Antero de Quental nasceu da observação de uma incorrecção detectada no nome do poeta, mais concretamente na partícula de erradamente substituída por do.

A abordagem que faz é correcta e teve o condão de me segredar meia dúzia de ideias irreverentes que de vez em quando me atravessam um espírito por norma cândido, ingénuo e inocente…

Ora (aqui começa a viagem atrevida) a mim não me choca que o poeta açoreano se chame Antero do Quental. Vou mesmo mais longe, ele deveria chamar-se Antero do Quintal. Primeiro porque na nossa terra já houve um Antero da horta, da horta da Aninhas (ali ao pé da Marconi). Era o Antero da Aninhas, bem o conheci.

Depois, é mais apropriado para um poeta ser Quintal e não Quental. E quem tal negar é porque não sabe rimar. Quintal evoca natureza, árvores de fruto, beleza de hortaliça, capoeiras, passarinhos a cantar, aquela lengalenga bucólica do costume. Por isso cada vez mais me convenço de que Quintal é bem mais adequado. Portanto, desculpe lá Dr. Nabais, o engano não está na partícula mas no apelido. Está certo do mas não é Quental e sim Quintal, Antero do Quintal.

Posto isto (que me parece lógico e perfeitamente demonstrado) restam-me dúvidas e ainda esta noite dei comigo a pensar com os meus botões de punho”António, deixa os poetas em paz, assim NABAIS longe”. Mas agora já está, os dados estão lançados, prossigamos no raciocínio delirante mas não tremente.

Por esta ordem de ideias, o Antero do Pão acaso seria Antero de Pão? E já agora, ambiguidade por ambiguidade, não seria Antero do Pau como o pirata da perna de dito?

E a localidade será Cruz de ou do Pau?

A partícula de confere sentido mais lato e mais lata preciso eu de ter para vos dizer que Joaquim do Moinho é só daquele, não é de todos os moinhos. Antero do Quintal é só de um enquanto Zé das Abóboras é de todas, sem excepção. Mais rigoroso e exacto era o “Quilo e meio de papas”, nem mais um grama (e não uma grama como vulgar e erradamente por aí se ouve).

Esta polémica é antiga e atravessou fronteiras. Inspirou até uma canção, nos anos cinquenta, a um cantor sul-americano, não sei se o Lucho Gatica se o António Machin. Na sua versão original intitulava-se “Olá Quintal”, mas desvirtuou-se e acabou em “Olá que tal”, como te vás, etc. e tal, olá que tal”.

Estamos perante uma questão de grande subtileza, pois dizer o Zé do Central” não é o mesmo que referir “o Zé de Central”. Neste último caso pode maldosamente pensar-se em prisão central ou banalmente em bancada central, se o peão estiver esgotado.

Dizem as más línguas que esta confusão entre do e de teve a sua origem num conhecido defeito de pronúncia de um antigo (que deseja ser futuro) chefe de Estado o qual, ao ler o nome do poeta, disse “Antero de Quental”onde estava “Antero do Quental”.

Enfim, é informação que dou um tanto à socapa, sob sérias reservas, visada pela comissão de censura e a bem da Nação. Sim, porque é complicado. Se não, reparem: António do Olho (Qual?) não é o mesmo que António de Olho (à Belenenses? à Benfica?).

Isto tem que se lhe diga, para falar de de e do é preciso dedo, não é coisa fácil.

Por exemplo, há muitas caras de bacalhau, mas só uma é cara do Bacalhau, aquele calmeirão da praça do peixe que aliás deveria ser de peixe pois não é só um mas todos ou quase. Mas quem vê caras não vê corações e até o Ricardo era Coração de Leão e não do Leão porque esse assa frangos saborosos ao pé do Canino. E por aí fora se poderia ir na busca incessante de trocadilhos mais ou menos conseguidos. Mas haja mesura e fiquemos por aqui, não sem antes pedir desculpa ao Dr. Nabais pela brejeirice com que entrei no seu quintal linguístico tão bem cultivado.

E já agora uma última laracha que me surge a propósito dos jogos de palavras e dos jogos de futebol. O treinador do Sporting afinal não sai do Clube. Pelo menos os adeptos leoninos, cansados de tanta contrariedade, não esperam mais essa de Queirós…


*Publicado originalmente em O Sesimbrense.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 67

O tio Nuno

António Cagica Rapaz

Ao Luís Filipe

Os rapazes da minha geração foram à catequese na igreja de cima, com o padre João, fizeram a comunhão solene, alguns a confirmação ou crisma, e construíram um ideal de vida assente na família, com a mística das novenas, a Festa das Chagas, a procissão imponente e comovente, o pitoresco profano dos santos populares e a ternura do presépio envolto em cânticos celestiais na missa da meia noite.

A família não se compra como as figuras do presépio que construíamos com cortiça das armações e o musgo do ribeiro. Bem teria gostado de ter tido uma família com muitos irmãos, primos, avós, gente boa e amiga à volta da mesa, ao pé da chaminé. Mas não tive. Quis, porém, o destino que tivesse vivido, em épocas e lugares diferentes, junto de famílias à imagem da minha idealização.

Durante alguns anos, na minha adolescência, na noite de Natal, fui à missa do galo e partilhei a consoada em casa do senhor Nuno Cardoso que era, para todos nós, o tio Nuno, um homem maravilhoso, de rara qualidade, bondoso, gentil, generoso, tolerante, de gosto apurado e com uma pontinha de malícia deliciosa.

O seu presépio era um universo de harmonia, mesura e poesia, numa recriação inspirada no amor que punha em cada gesto. Naquela noite, o tio Nuno era o Pai Natal que tinha uma prendinha para cada um de nós. Mas a dádiva maior era a sua amizade, delicada e pura, o seu sorriso e a sua bondade.

Durante anos tive a felicidade da sua convivência, em particular na Cotovia, em domingos inesquecíveis iluminados pela espiritualidade da sua presença, do seu fino humor, da sua irreverência benigna.

O tio Nuno deixa-nos uma recordação luminosa, o apurado sentido estético e ético da existência, a suavidade do trato e a pureza de sentimentos. Com o tio Jojó e a D. Stella, formava uma trindade maravilhosa.

Quando passardes no largo da igreja de cima, olhai as janelas da casa de esquina. Ali viveu um homem admirável que partiu na Primavera de 1976. Treze dias depois foi-se-lhe juntar a minha mãe que tanto apreciava a sua companhia nas tardes da Cotovia. Quem, como ele, era bom, generoso e gentil, só podia partir na Primavera, tinha de ser em Abril...

1982

segunda-feira, 11 de julho de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 66

Pepita

António Cagica Rapaz

A minha mais remota recordação do Mário Martelo situa-o num recinto de cimento, com tabelas, junto ao velho balneário do Desportivo, nos primeiros anos da década de 50, onde os adultos jogavam voleibol e os miúdos se esfalfavam atrás de bolas de borracha saídas na farinha Amparo ou nos rebuçados das cadernetas.

Volvidos anos, habituei-me a vê-lo entre o Central e o Filipe, em fins de tarde, em noites de lota, junto do Chico Cagica e da Maria Eugénia.

O fim do dia era bonito na esplanada do Central, na suavidade do entardecer, com as senhoras arranjadas, refeitas da praia, o bronzeado a sobressair na alvura das blusas, toda uma atmosfera de elegância preguiçosa, sem pressas, a noite era uma promessa renovada em cada maré.

À discrição e certa timidez do Mário respondia a Pepita com desassombro, vitalidade fulgurante, temperamento de fogo e aura vibrante. A Pepita é a franqueza absoluta, sem rodeios, sem trejeitos nem pruridos, entusiasmo e omnipresença, um vulcão que o tempo não adormeceu. Deu o nome a uma traineira, encheu a baía, encheu Sesimbra, com a sua graça, a sua raça, a sua alegria luminosa, mulher de pirata que não receia o rugir dos canhões nem o fogo de Santelmo. A seu lado, do alto do torreão da Galé, o Mário contempla com enlevo a Pepita que volta do mar carregada de sardinha, festejada por mil gaivotas endiabradas, em voos circundantes, recortadas no céu azul de manhãs que só existem no vértice mais puro e sublime das nossas recordações. Ou das nossas ilusões...

As traineiras já não vêm ancorar junto da fortaleza, a lota esconde-se na doca. Ficou a nostalgia da festa dos archotes, do recorte difuso das barcas ali a duas braçadas da praia, do gelo do Chanoca, do burburinho da lota, do perfume das férias, da magia do Verão, do sortilégio da noite, com botas de água e saltos altos.

O Mário e a Pepita simbolizam uma época, um estilo de vida muito partilhada, muito convivida, na praia, na lota, na esplanada, na rua, sempre com calor, com amigos à volta, com certa exuberância saudável e colorida, porventura a alma espanhola a abanar a melancolia lusitana...

1997

segunda-feira, 27 de junho de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 64


António Cagica Rapaz

Por uma bela tarde de Verão, no início dos anos cinquenta, a tia Stella tomou corajosamente o volante do delicioso Ânglia preto rumo à Cotovia onde o tio Jó tivera a insólita lembrança de construir uma casa, no alto da charneca, num ermo, bem longe do mundo civilizado que girava em torno do Grémio e do Central.

No seu desejo de evasão fora acompanhado pelo tio Né, o garboso comandante dos Bombeiros, Hernâni Baptista.
A Cotovia era também o domínio de quatro rapazolas naquele paraíso protegido por soberbos pinheiros mansos, com bicicletas, espingardas de pressão de ar, ratoeiras para os pássaros, um mundo de aventuras que me fascinava. O entusiasmo levou-nos a combinar uma arriscada expedição para irmos armar aos pássaros na manhã seguinte. O melhor seria ficarmos lá, dormirmos na Cotovia. Eu dormi com o Luís Filipe e foi o início de uma bela amizade...

Assim nasceu a minha paixão pela Cotovia onde passei alguns dos mais agradáveis momentos da minha vida, graças à bondade do tio Jó e à paciência da tia Fernanda. O Luís Filipe vinha dar uns toques cabazeiros nos matraquilhos onde ele e o Joca eram fregueses certos da dupla que formei com o Zé. Enquanto a Carmelinda e a tia Fernanda limpavam a loiça, o António adormecia agarrado à telefonia a ouvir o relato e o tio Jó trocava dois dedos de conversa com o Jorge enquanto o Chico não chegava. O compadre Artur nunca tardava e o tio Nuno via-se aflito para impedir a Miss de cravar o dente no pudim que acompanhava o café suave que a aguardente do Jorge iluminava.

Muitos anos depois, voltei à Cotovia, a meio do ano, a meio da vida, em breve escala. Jantámos, conversámos longamente e preparámos o farnel para a expedição da caça na manhã seguinte.

Foi uma decisão repentina e inesperada. Precisávamos de falar, havia anos de certa distância, eu vivia em França, tínhamos muita coisa para contar, para evocar, para partilhar. Dormi na cama do Zé, bem enrolado nos cobertores, sensação agradável de conforto, ao desafio com a frescura húmida da noite.

Quase como dezenas de anos antes, acordei cedo para ir à caça. O tio Jó levou espingarda, mas não deu um único tiro. Eu levei um cajado e o saco do farnel. Percorremos quilómetros, embriagados pelo ar puro da manhã, mal nos preocupámos com coelhos ou perdizes. Apenas matámos saudades, antes aproveitámos o nascer do sol, a cumplicidade da natureza para conversar, muito, num diálogo a sós, único, inesquecível, entre homens, entre amigos, com muita ternura e cumplicidade. Há acontecimentos assim na nossa vida, e naquela manhã solitária e deslumbrante partilhámos muito mais do que o farnel e o cantil do vinho...

Na Cotovia das minhas recordações o Outono era eterno, havia sempre neblina e desejo de carapaus secos. E a Cotovia era, sobretudo, o tio Jó, um homem maravilhoso, admirável de bondade, inteligência, alma de artista, nobreza de sentimentos, delicadeza, trato fino, humor subtil, bom gosto, sentido estético, numa permanente celebração da vida. E uma franca generosidade, o prazer de partilhar a sombra doce do enorme pinheiro do altinho de S. João, a mesa, o convívio fraterno.

A caça, para ele, era apenas o pretexto para um bocado de exercício e estar com os amigos. A velha garagem foi transformada numa “Toca” acolhedora, com as relíquias e recordações da caça, o cantinho dos petiscos, o calor da amizade.

O Jorge era o seu velho mestre de armas que conhecia os cantos à casa, os abrigos, a direcção do vento, o canto dos pássaros.

Sem eles, a Cotovia não faz sentido...
1997

segunda-feira, 20 de junho de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 63

O tio Plínio

António Cagica Rapaz

Era uma manhã fresca de sábado, com o sol filtrado pela bruma. Lá em baixo, o mar e a Pedra Alta, ali, a dois passos, o bairro dos pescadores e a Cruz solitária...

O tio Plínio baixou o som do rádio e pôs em nós aqueles olhos que viram morrer um século e nascer outro. O meu pai ainda chegou a trabalhar com o tio Plínio, na profissão de carpinteiro, na arte de marceneiro, no universo aconchegado da madeira, de cheiro tão familiar, com as mil ferramentas que ajudam a construir o presépio e o cenário das nossas vidas, do berço até ao caixão, bancos e mesas, camas e armários, vigas e barrotes, baús e caixas, pipas e selhas, soalhos e tectos, a certeza metálica do martelo, o prego a mergulhar na tábua. E, sempre, o cheiro, o bom cheiro da madeira...

O tio Plínio é um artista, músico de talento e hábil carpinteiro. Imagino-o a construir violinos com madeiras raras, linhas suaves e sonoridade celestial, juntando as duas artes em harmonia perfeita, a delicada e minuciosa junção das paredes do violino para colocação precisa das cordas e a fricção arrepiante do arco ligeiro.

Há algo de transcendente e místico na arte ancestral de trabalhar a madeira. Algo que tem a ver com as nossas raízes, a nossa segurança, agarrados à nossa terra. Mas, ao mesmo tempo, a madeira flutua, procura outros horizontes através de rios e mares. No fim da viagem, seca ao sol e aquece as noites frias da nossa solidão.

O carpinteiro é mágico, é Gepeto que cria sonho e realidade, protecção, aconchego no lar travejado, escorado por mão forte e amiga. Entre a sua oficina e a música, o tio Plínio criou um universo de harmonia, trabalha ao seu ritmo, acaricia a madeira, retoca, apara, ajusta, cola, acomoda, encaixa, prega. O tempo é o sol, as florestas levam anos a crescer, a vida escoa-se com lentidão. Importante é ir fazendo, com amor e paciência, falando com os amigos, ouvindo, mostrando, partilhando a celebração do culto da madeira, com ternura, quase com volúpia.

O mar fica lá em baixo e os carros não sobem escadas. Mais acima, no terreiro da Cruz, em tempos distantes, lançávamos estrelas em tardes sombrias de vendaval.

Algures, na rua da Caridade, há outro artista que, pacientemente, faz maravilhas em miniaturas de barcos. Tem a sua loja, o seu atelier de criação artística, o seu mundo, ali onde já cheira a mar, a dois passos da Galé. São figuras deste presépio que Sesimbra ainda é, a espaços, entre duas marés, nas entrelinhas, quando a olhamos do poial da nossa porta.

Quando passo na rua do Forno, deito um olho à oficina do tio Elias. Ambos carpinteiros, ambos homens bons, com nomes excelsos, Plínio e Elias.

Daí, talvez e em parte, o orgulho com que conservo, como coisa preciosa, um cartão de visita do meu pai, único, nunca vi outro, singelo, admirável.

Diz apenas: António Cagica Rapaz – Carpinteiro.


1995

sexta-feira, 17 de junho de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 63

Segundo andamento*

António Cagica Rapaz

O senhor Camilo José Cela é um maravilhoso escritor galego que, em 1989, conquistou o Prémio Nobel, graças ao seu estilo admirável, todo ele originalidade, ritmo poético, imaginação, fantasia, subtileza e humor fino, numa fluência mágica que faz das palavras seixos cantantes que vão rolando riacho abaixo para nosso deleite e encantamento.

E tem também uma pontinha de loucura, atrevimento e irreverência que bem me agrada, porque nenhum de nós é um bloco inteiriço e compacto, antes temos esquinas, becos insuspeitos, arestas e fendas, caves secretas, gavetas misteriosas e sótãos por arrombar.

Por isso, podemos fazer um discurso sério, sisudo, sentido, sofrido e doloroso para logo soltarmos uma saudável laracha, das que provocam sonoras gargalhadas capazes de rebentar com os cós das calças como gostaria que este fosse. Todos temos em nós a melancolia do Outono, a poesia da Primavera, o fulgor do Verão e os arrepios do Inverno…

Pois o nosso Camilo José pregou-me uma partida que bem vos conto.

Embalado pela excentricidade poética, pela fantasia deslumbrante dos seus “Onze contos de futebol”, atirei-me como gato a bofe à “Cruz de Santo André”. Imaginem a minha surpresa ao deparar com frases que me fizeram corar de (muito pouco) vergonha. Já lá vamos.

Todos sabemos que o peso das palavras, o seu impacte, a sua carga emocional dependem, fundamentalmente, do contexto, do enquadramento. Há coisas que passam com naturalidade quando são ditas, mas as mesmas palavras já nos chocam quando as vemos escritas, impressas no papel. Num jornal é menos grave, vai e vem, leva-o o vento, acaba no caixote de lixo. Mas um livro é coisa séria, pode ficar para a posteridade, entrar na História.

Vejam só o meu espanto ao ler, da autoria de Camilo José Cela, estas coisas alucinantes:

“…por vingança, mijou e cagou-lhe na roupa” (p. 36).

“e a pilinha escura de mais, além de ser de baixo de cu” (pág. 62); “…o don Alfonso era  mais de bufas do que de peidos” (pág. 87). 

Garanto que estas passagens são das mais suaves, havendo outras infinitamente mais chocantes, num universo de putas e proxenetas. É uma edição da DIFEL – Difusão Editorial – 1994.

Lembrei-me logo de um parente meu cujas tiradas coloridas ficaram célebres. Ora, depois do que li (e aqui não reproduzo), chego à conclusão de que, bem vistas as coisas, ele era um aprendiz na arte de cultivar a brejeirice. De facto, é de se ficar boquiaberto, incrédulo e abananado.

Ninguém se admira quando um bufão como o Herman José diz graçolas mal cheirosas, mas um poeta sublime como o nosso bom Camilo! É de bradar aos Cela da família toda cujos antepassados devem ter dado voltas e mais voltas nos jazigos.

Voltas de gozo, imagino, rindo a caixões despregados porque, provavelmente, aquilo já vem de longe, é hereditário, tudo malandragem, farsantes e desavergonhados.

No fundo, tudo isto é bem pouco significante, sendo porventura benigno e até salutar. Porque se Camilo José cela nos delicia com o seu talento e a sua imaginação delirante que nos levam ao êxtase, ao sonho e ao encantamento, ao mesmo tempo, chama-nos à realidade, bate-nos no ombro para nos recordar que artifícios e rigores postiços são ridículos.

Os preconceitos, a parcimónia, as convenções sociais, a etiqueta, a ética, a moral, o bom gosto, o bom tom e, sobretudo, a hipocrisia ditam e condicionam o comportamento público das pessoas. Em privado, sabe Deus… 

Se não acreditam, peçam ao Julião para contar a proeza épica do Diogo que, apenas com um sopro fulminante, levantou duas filas na geral do Parque. Diz a lenda que, na taberna da Maria “Antónia”, tiveram que perfumar com alecrim.

Não vos dou pormenores porque não fui testemunha olfactiva e também porque a minha mãezinha sempre me desaconselhou temas escabrosos. Ah, muito haveria a contar sobre o Parque! Que era ao ar livre. O que faria se fosse no tempo da ópera bufa…

Estas reticências e pruridos só existem porque levamos a vida demasiado a sério, esquecendo que estamos todos, desde que nascemos, condenados à morte.

Naturalmente, nada justifica nem deve ficar impune qualquer atentado ao próximo, à sua dignidade, às suas convicções, aos seus princípios, embora não seja fácil estabelecer padrões ou normas em coisas tão subjectivas como o bom gosto, o humor ou o sentido do ridículo.

Não gosto de hipocrisia nem de abusos, embora reconheça que os limites sejam, como referi, difíceis de estabelecer. A brejeirice pode até ter elegância e finura, e, por vezes, será mesmo aceitável algum excesso, mas em circunstâncias que só no contexto próprio nós sentimos poder definir.

Chocam-me a falsa nota, a derrapagem, o cabelo na sopa, o arroto à mesa, o “coiso” entalado na virilha, por exemplo. Cá está, não fui capaz de escrever o que queria, por pudor, por acanhamento, não sei. Ainda tenho muito que treinar para adquiri a espontaneidade dos desinibidos. Mesmo assim, não fui desajeitado de todo porque coiso tem um arzinho maroto e insinuante enquanto “testículo” é vocábulo técnico e insípido. Foi o que consegui arranjar, pois não escreveria “colhão”, palavra feia que alguém pudico como eu jamais usaria nem ousaria…

Por outro lado, estas coisas têm muito de cultural, embora não pareça.

Por exemplo, os fleumáticos britânicos são conhecidos por serem o suprasumo dos cavalheiros e disso vos dou um exemplo verídico.

Há um bom par de anos encontrou-se o meu amigo V. na casa de banho, mais propriamente nos urinóis, do Hotel do Mar, no primeiro andamento do “allegro despejato”.

Ora, está cientificamente provado que é nessa fase de arranque para a expelição inicial que a 92,7% dos homens sai o esforço furado, ou seja, a desejada saída sofre um duplo revés. Mais concretamente, faz-se não pela frente mas pelas traseiras e não no estado líquido mas no gasoso, sob forma de ventosidade, em geral sonora (os investigadores são formais).

Foi o que sucedeu ao meu amigo V. que, na calamitosa e funesta circunstância, fez o que 99% dos homens fazem, ou seja, olhou em volta, na esperança (defraudada, claro) de que não houvesse testemunhas ou, se houvesse, que os eu descuido tivesse passado despercebido.

Já agora, para cultura geral, é bom saber que os que não olham em redor só não o fazem por estarem com um torcicolo. Impedidos dessa verificação, ficam ainda mais aflitos e repetem a dose…

Portanto, resumindo e abreviando, sem mais salamaleques, o meu amigo V. estava a mijar e, como já estão a adivinhar, deu um pum, um traque, um peido, pronto, seco, conciso, bem aviado.

Posto o que, ao executar o inevitável movimento de rotação da envergonhada cabecinha, o seu olhar se cruzou com o de um indubitável súbdito de Sua Majestade a Rainha de Inglaterra, que estava, por seu turno, no segundo andamento da sacudidela. O meu amigo V. ficou para morrer. Desesperada e inutilmente, ainda apertou as nádegas, mas era tarde, já lá ia, o mal estava feito. Pior que isso, a expressão sonora dispensava tradução, é linguagem (salvo seja) universal, onomatopeido, com todas as letras.

Corado até à raiz dos cabelos encrespados, o meu amigo V. encolheu o resto, porque uma desgraça nunca vem só, arrumou a ferramenta e preparou-se para ouvir um raspanete azedo do “gentleman”. Para sua grande surpresa, de súbito, o súbdito virou-se, com um sorriso prazenteiro e cúmplice, dizendo:

- "It’s the right place to do it!” – ou seja, (para quem não sabe paquistanês) “é o sítio indicado para fazer estas coisas».

Foi uma cena comovedora e não garanto que não se tenham cumprimentado (depois de terem lavado as mãos, claro) e que não tenham ensaiado uma desgarrada, afinados que estavam os instrumentos.

Quem me perdoem as almas mais sensíveis, irmãs da caridade, antigos professores, amigos do peito e sócios do Arrifanense, mas de poeta e de louco todos nós temos um pouco.

Porém, graças à inspiração das musas, céleres como o vento norte, logo traçamos as nossas capas românticas, saudamos com gesto vago de chapéu de abas largas, fazemos amorável reverência e retomamos a nossa pose digna e irrepreensível.

Sede condescendentes, somos simples seres humanos, com as nossas fraquezas e os nossos jardins secretos onde nem sempre cheira a rosas.

Depois, a vida continua, estamos no Outono, deixamo-nos levar pela sensibilidade, as folhas secas nos bosques habitados por faunos e duendes, em tardes pálidas perpassadas de melancolia, na brisa doce do entardecer…

Ah, esta nossa alma de poetas, só ternura e requebros meigos!

Somos assim, enquanto dormita o mafarrico que está em nós. E então…

Camilo, faz mais daquilo!!!

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* Publicado em O Sesimbrense de Outubro de 1996.