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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 72

Raízes

António Cagica Rapaz

- Era bonito, não era?

- Como diz, é comigo?

- Sim... queira desculpar, mas aqui, junto a este muro, de repente, senti uma grande saudade da lota. Era bonito, não era? Agora, ao fim da tarde, a fortaleza até me parece escura e triste, um mostrengo inútil.

- Sim, tem razão, é uma tristeza...

- Antigamente a fortaleza abrigava a lota, enquadrava o movimento das barcas, das chatas, dos pescadores, dos vendedores, dos almocreves, estendia uma sombra protectora, era um presépio permanente.

- É verdade, a lota deixou um vazio enorme.

- De cada vez que me sento neste muro, parece-me ouvir ainda vozes cruzadas, a cantilena dos vendedores, os gritos, os dichotes, a grande azáfama da vida arrematada em lotes...

- Ena, o amigo tem veia poética.

- Bem gostaria, bem gostaria, mas mal consigo exprimir o que sinto, o que me ficou de tudo isto, da beleza que Sesimbra encerrava. Já não é a mesma a nossa terra.

- Ah, o senhor é de cá...

- Não, não sou... isto é, nem sei bem...

- Não sabe?

- De facto não nasci em Sesimbra, mas para mim ser é pertencer, é gostar, é estar ligado, é sentir. Para muitas pessoas que cá nasceram, o Macorrilho era apenas um passadiço, ontem destapado, hoje coberto de areia, mas só um passadiço. A lota era aqui, hoje é na doca, tanto faz. Quem nasceu na rua do Norte ou na rua do Saco habituou-se a ter o mar à porta. Por isso, quando saem de casa, mal o olham, se o olham não o vêem e, se o vêem, não o sentem.

- Explique lá isso melhor...

- Olhe, eu não preciso de olhar o mar para saber de que cor está, que aspecto tem. Por exemplo, nas manhãs frescas de Inverno, quando a brisa sopra da terra, ele fica muito azul e enrugado como a pele do tio Vicente Faneca.

- Não sei quem é.

- Eu também não o conheci, já morreu há muito, mas li há tempos uma evocação que hoje me leva a imaginá-lo de barrete preto, bigode, olhar perdido no mar, em tardes de vendaval, nas escadinhas da rua dos Pescadores.

- Ah, já percebi, anda aí literatura caseira...

- É verdade, não nego. Leio tudo o que fala de Sesimbra, assino os dois jornais da terra. Sesimbra, para mim, não foi o acaso de um nascimento, mas uma escolha, uma paixão. Comecei por vir de férias, com os meus pais, depois casei, continuei a vir e acabei por cá comprar uma casinha.

- Temos então um pexito por adopção...

- Sabe, se calhar, o ideal é viver em Lisboa e vir cá, espaçadamente, para saborear em momentos escolhidos, isolados, em escapadelas. Por vezes, ao cair da tarde, sinto como um chamamento do mar. A minha mulher já conhece os sintomas e prepara tudo para virmos. De repente, aí vamos nós, ponte fora, Apostiça abaixo, Cotovia à vista, Sesimbra é já aqui e que bom que é. Assim, contra a corrente, fora do tempo, apanhamos Sesimbra em sossego, desprevenida. Contemplamos o mar, passeamos na orla da noite e depois vamos jantar como dois namorados. Umas vezes ouvindo o murmúrio das vagas e saboreando a sopa rica de peixe do Hélder. Outras vezes, fugimos para o campo e vamos ao São Jorge, à Aiana, conversar com o Zé Martins enquanto a Dona Manuela nos prepara uma deliciosa cataplana. A felicidade é bem capaz de ser isto, momentos como estes, não sei.

- Cá temos outra vez o poeta...

- Com os anos e a leitura dos jornais, passei a conhecer nomes de ruas, nomes de pessoas e até alcunhas. Acho interessante e às vezes apaixonante a forma como certos escritos nos falam das pessoas, nos revelam a alma de Sesimbra, com ternura e poesia. Bem gostaria de ter conhecido o padre João, as armações, as ruas enfeitadas e tantas outras coisas. É verdade...

- Tem razão. E é curioso porque nunca vi as coisas por esse prisma. Bem vê, o meu caso é diferente, eu conheço toda a gente...

- Ah, o senhor é de cá!

- Olhe, já não sei. Para lhe falar com franqueza, depois de tudo o que me disse, já não sei se sou de cá. O meu amigo é muito mais de cá do que eu. E no entanto nasci cá, moro é no campo.

- Felizardo. Desculpe a minha tagarelice, quando gosto não me contenho...

- Eu é que lhe agradeço, aprendi muito. Olhe, se calhar, esta conversa, bem trabalhada, era capaz de dar uma crónica jeitosa.

- Talvez, só que eu a falar ainda dou um jeito, agora a escrever...

1994

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 71

Helder

António Cagica Rapaz

- Dona Cremilde, marque um quarto d’ hora...

Invariavelmente, absorvida pelos cafés e pelas sandes, quando a dona Cremilde se lembrava do bilhar já lá ia meia hora.

Candidamente, nós esquecíamo-nos de perguntar, naturalmente. Era no velho Ribamar, ainda e só café, muito antes de ser o restaurante mais emblemático de Sesimbra.

Não era fácil ser filho do Chagas, poeta da noite, mais sonhador que comerciante, paixão e orgulho ao leme do seu Ribamar onde se cantava o fado e de onde saia o arquinho e balão.

O Hélder cresceu a ver o pai puxar pelo Ribamar, encher Sesimbra de festa, deliciar-se ao microfone, viver em frenesim.

O pai Chagas foi um homem dinâmico e inovador que soube transmitir ao Hélder a vontade de lutar, de progredir na profissão, sem esquecer os prazeres da vida, entre eles a música. Ou não tivesse ele próprio tido uma bela voz...

O aparecimento dos Beatles despertou no Hélder o desejo de fazer música a sério e assim nasceram os Zambras. Foi um período maravilhoso, anos sessenta, com alegria, entusiasmo, num universo de boa camaradagem, cumplicidade e entreajuda, desde o pai Chagas até ao mestre Henrique Sineiro que foi patrocinador, motorista, apoiante da primeira hora e, sobretudo, um grande amigo.

Um acidente de viação frustrou-lhe os planos de entrada na Força Aérea e obrigou o Hélder a enfrentar mais cedo do que previra a vida real. Foi o início da epopeia...

Primeiro, ficou à frente do Ribamar, quatro anos de luta que culminaram com a abertura do Pedra Alta, de sociedade. Depois, foi o novo Ribamar, na marginal, bem de frente para o oceano. Mais tarde, seria a vez do Angelus, em Santana, casa aberta por um antigo empregado do velho Ribamar, nos anos cinquenta, marés da vida.

A carreira profissional do Hélder Chagas é notável, determinação, rigor, bom gosto, simpatia, exigência, qualidade, tudo quanto explica que o seu Ribamar seja um dos 100 melhores restaurantes de Portugal.

Mas o mais valioso é que o Hélder soube fazer-se Homem sem vender a alma por dinheiro, sem esquecer a poesia nem os valores essenciais da vida, os afectos, a dignidade, as raízes. Continua a ter o mesmo olhar bondoso, o mesmo sorriso bonito, certamente feliz por ter conseguido construir o que, a certa altura, decidiu ser a sua carreira, aquilo que o pai sonhou sem ter podido concretizar.

A tia Cremilde continua a cozinhar para o Hélder que, sempre que pode, vai comer com a mãe, para felicidade de ambos. Mal se adivinha nela uma pontinha de orgulho, tanta é a ternura em que envolve o menino...

2000

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 70

O fado

António Cagica Rapaz

Eles conhecem o caminho, aproam à Marisqueira, amarram o cabo a uma mesa, aguentam a abordagem de um ou outro pendura de giga pronta a receber qualquer teca de brandy ou Aveleda, dizem “saúde” várias vezes e, quando a caldeira começa a ferver, levantam ferro, rumo ao Espadarte Clube.

Sobre as magníficas lajes, cadeiras e mesas com velas que emprestam ao ambiente a mortiça luz castiçal das noites de fado em que há no ar o ciúme, a paixão, a navalha e o canalha...

Instalado o rebanho dos turistas, surgem os boémios locais para beber um copo e tentar sacar uma lady, ainda que entradota. Com os copos, a partir da uma da manhã, todas elas têm dezoito anos, afiança o Ernesto Corneta.

Corre-se a cortina e entra o Zé Manel que traz o fatinho azul escuro e gravata. Os guitarristas avançam, o fado instala-se na noite. Os turistas olham com curiosidade, os conquistadores ardem de impaciência.

O Zé Manel, como sempre, canta “É tão bom ser pequenino”. Depois, agarra o copo, molha a garganta e segreda qualquer coisa ao guitarrista. Coloca-se no meio da pista, ar gingão, põe-se em bicos de pés e lança, com desdém “Se queres ir embora, vai”. Claro que ninguém vai porque o Zé Manel tem raça e os turistas aplaudem com calor, Fada very good...

Ainda as palmas não cessaram e já o estrangeirame se vê com uma pandeireta na mão e um reco-reco sobre a mesa. É o folclore que chega, aguardado com ansiedade pelos caçadores especiais que, na penumbra, traçaram o seu plano de ataque.

Mal o António do Porto arranca os primeiros acordes da gaita de beiços, eis que os dados estão jogados e os comandos lançados. Qual suicida, o “Gaivota” é o primeiro. Uma ligeira vénia diante do marido, duas palavras que ninguém entente e a mulher já se levanta para dançar. Elas são civilizadas, simpáticas, desinibidas, é festa, férias são férias. Quando a marcha acaba, a dama não tem tempo de se sentar porque os outros passam ao ataque, todos dançam com a disponível senhora. Agora já não há vénia nem outro protocolo. De braços no ar, aproximam-se da mesa, dançando sozinhos, fazendo o gesto clássico com o dedo indicador a circundar e já está, é à balda, estamos com a nossa gente. O marido, quase grosso, toca desajeitadamente a pandeireta e ri-se com cara de parvo...

Corre-se a cortina e todos os olhares convergem para a porta. Entra o Júlio Silva, o meu rico Júlio, o John Português.

O Zé Manel olha para o Valdemar e diz “Está tudo estragado”.

O Júlio avança, Good night para a direita, Hello para a esquerda e ele aí está na mesa de um casal alemão para aceitar o copo que lhe oferecem. Quando lhe perguntam se vai cantar, franze o nariz, encolhe os ombros e diz que não se sente em forma. O folclore acaba. O Pinhal acende bruscamente uma luz branca e crua, ruidosamente contestada pela assistência, põe de novo o Rose Garden numa rotação errada e alguém grita “Vai pr’a casa, vai”. O Pinhal abala porta fora, sem dar as boas noites ao “Trinitá”...

De novo o fado. Há protestos por parte dos conquistadores que preferem música de dança para tentarem aproximações.

O Zé Manel vai no terceiro parafuso e parece mal disposto.

Lá do fundo, uma voz, “Ó Júlio””.

O Júlio, sorri, falsa modéstia, encolhe de novo os ombros, olha pr’ó Zé Manel, olha pr’ó sô Zé Brás, levanta-se, saúda a plateia que repete “Ó Júlio, ó Júlio” e coloca-se atrás dos fadistas. Afinal, o Júlio sempre vai cantar. Murmura ao ouvido do guitarrista o que todos adivinham e prepara-se para cantar (pois o que havia de ser?) o fado do cigano que matou o cavalo na feira da Agualva. A malta faz coro, o Júlio ganha calor. A certa altura, lá do fundo, uma voz “Ah, fadista!”. Os turistas repetem “Ah, fadista!”, o entusiasmo vai alto. O Júlio ataca com vigor e, quando o cigano se prepara para matar o cavalo, uma voz grita: “Mijão!”.

É o desastre. O Júlio fica branco, o Zé Manel ri-se, as nuvens de fumo parecem de chumbo, o fado seca na garganta do fadista, mata o cavalo, não mata o cavalo? A sua expressão é dura, finca os dedos nas costas dos guitarristas, acaba com o cavalo e vai-se embora. Os turistas olham-se, olham-no, sem compreender, o Júlio está a ferver. De repente, o autor da provocação levanta-se e vai ter com o Júlio.

- Boa noite, ó mestre!

- Ah, foste tu? Julgava que era o “Gaivota”...

E o fado continua, ainda a noite é uma criança, é tudo no gozo, para engatar o Júlio. Às tantas, tudo canta, minha gente. O Zé Manel bisa “É tão bom ser cavalo”, perdão, “É tão bom ser pequenino”, e, quando o “Trinitá” fecha a porta, já o chamador gritou pela companha toda...

1983

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 71

Até ao meu regresso*
António Cagica Rapaz
Há muitos anos ouvi contar o caso, não sei se verídico, de uma mulher que abalou, praia fora, em direcção ao mar, gritando, repetidamente, que se ia afogar. Quando a água lhe chegou à cintura, olhou para trás e perguntou: “Então, ninguém me vem salvar?”. Claro, ninguém foi. E ela desistiu de se afogar…
Assim (quase) estou eu, anunciando que deixo de escrever para, afinal, estar de volta, um mês depois. Contudo, não é bem a mesma coisa e passo a explicar.
A minha decisão de interromper a colaboração não foi ditada por uma qualquer crise de vedetismo nem por capricho idiota. Entendamo-nos bem, eu sou apenas um colaborador, não estive na corrida para o Prémio Nobel, não vou passar à posteridade, e a hipotética evidência que estes escritos possam conferir não ultrapassa a curva da Alfarrobeira. A questão é simples, embora algo delicada, pois entra na esfera da susceptibilidade que, como os gostos, não se discute, cada um tem a sua, é assim, acabou-se.
Poderia eu, hoje, retomar as minhas redacções feitas em casa, molhando o aparo no tinteiro e torcendo a língua no canto da boca, como se nada tivesse acontecido. Podia, claro que podia, era mais simples, ninguém me levava preso. Porém, achei que vos devia uma explicação. Não porque os meus estados de espírito sejam importantes para o futuro da humanidade, mas apenas porque me parece normal e salutar esclarecer, e porque o tema se reveste de certo interesse especulativo. Devo, aliás, dizer que considero excessivas as apreciações elogiosas que me fizeram neste espaço, no mês passado, só explicáveis pela bondade dos seus autores. E que elas em nada contribuíram para o meu regresso. Pela simples razão de que nada tinha contra o jornal ou os seus colaboradores. A questão é muito antiga e tem a ver com a atitude de algumas pessoas… Já lá vamos.
Quem me conhece sabe que não sou vaidoso, nunca armei em vedeta nem tenho birras. Apenas sucede que, até hoje, tenho tido o privilégio de escrever em total independência. E por gosto. Mesmo quando era pago, só escrevia o que me apetecia e dava prazer. Gosto de escrever, mas, por vezes, a motivação dilui-se, sinto vontade de parar. Há muitos meses que andava para o fazer. Aconteceu agora. E explico porquê.
Aqueles que têm o hábito e a bondade de me ler, já repararam que pouco falo de mim, apenas o necessário para situar e enquadrar. Falo, sim, dos outros, de pessoas de quem gosto, que admiro ou que, simplesmente, acho interessantes. Tiro-lhes o retrato de corpo inteiro, pinto-as com as cores da minha amizade, da minha fantasia e ofereço-lhes o modesto destaque que está ao meu alcance proporcionar. Recordo-me que o meu primeiro artigo num grande jornal (Diário de Lisboa, 1971) foi dedicado ao Fragata, um jogador excepcional, um gigante, um exemplo e um símbolo do futebol sesimbrense.
Tenho procurado dar prazer às pessoas sobre quem escrevo bom número das minhas crónicas, e também aos leitores para os quais o importante é a qualidade do escrito. Depois, penso igualmente em mim, porque cobro à partida uma parte do prazer que procuro dar. E muitas vezes gosto de ler o que escrevo…
Dizem que amor com amor se paga, mas raramente tenho tido reacções das pessoas a quem consagro as minhas crónicas. Não esperaria agradecimentos, mas uma palavrinha, um sinal de conivência, de cumplicidade, de sintonia afectiva. Perante estes silêncios (e muitos têm sido), fico com a desagradável sensação de estar a errar o alvo, a escrever no vazio, a cumprir uma obrigação, a pregar um sermão que ninguém me encomendou. Dizia a minha mãe que “quem faz festas a galegos mais galego é”. E tinha muita razão, pelos vistos. É estranho que alguém (e não foi só um) a quem dedico um artigo “nem à merda me mande”, como diz o nosso bom povo.
É estranho, desagradável e dá que pensar…
Há, no entanto, quem considere que a pessoa que escreve não deve preocupar-se com as reacções dos outros, nada deve esperar, deve apenas escrever.
Talvez, mas não é assim que vejo e sinto as coisas. Para mim, há uma partilha, uma interacção, uma troca, um movimento circular, uma corrente que se deveria estabelecer entre quem escreve e quem lê. Admito que possa haver certa indiferença, certa distância entre escritor e leitor num universo amplo, numa grande cidade ou à escala nacional.   
Mas, num jornal como o nosso, numa terra pequena, a dimensão afectiva é muito maior e reencontramos o universo ingénuo das representações na Vila Amália, em cada dia 1 de Dezembro da nossa Mocidade extinta. Lá íamos, com emoção com entusiasmo e deslumbramento, perante o olhar embevecido dos nossos familiares e amigos, bondosos e parciais, que aplaudiam ruidosa e orgulhosamente as nossas piruetas no palco. Aqui, escrevo sobre os meus amigos (serão?), sobre vizinhos, parentes, vivemos na mesma terra, na mesma rua, na porta ao lado, é outra coisa, cruzamo-nos a cada esquina. Por isso, a tal dimensão afectiva é tão grande. A reacção dos outros não é só um bálsamo e um estímulo, é também um sinal, uma orientação, diz-nos se estamos a escrever o que gostam de ler, se vale a pena, se estamos no bom caminho. Por estas razões e porque tenho escrito muitas coisas por amizade e por amor, não entendo e dificilmente aceito certas atitudes. Contudo, quero frisar que não me considero pedra essencial. Fazer este jornal é uma cruzada, trabalho de Hércules que exige paixão e sacrifício. Pela minha parte limito-me a escrever ao correr da pena, mas sem o esforço e a prosa vigilante do Carlos Batista não haveria jornal. É ele, de facto, a trave mestra, com a primeira ajuda do Pedro Filipe, é bom não esquecer. Eu só dou um jeitinho para torcer o rabo ao bicho, na molhada…
O jornal é filho de todos nós e quem faz um filho fá-lo por gosto, é bem sabido.
Daí que possa haver da nossa parte (em uns mais do que noutros, não sei) uma sensibilidade exacerbada que pode levar-nos a aceitar menos bem certas reacções. Ou a falta delas.
Há uma pessoa já falecida sobre a qual escrevi várias vezes, sempre com ternura e admiração, repetidamente, o melhor que pude, ao longo dos anos. E nunca, nem uma só vez, um dos familiares me disse, ao menos, que leu. É muito estranho. E há vários casos destes, esquisitos, surpreendentes…
Ora, como só escrevo sobre pessoas de quem gosto, acabo por me encontrar frequentemente com elas, com familiares, com amigos íntimos. Obrigatoriamente. E é este o nó da questão. Perante estes silêncios estranhos, que fazer? Perguntar-lhes se assinam “O Sesimbrense”? Se o lêem? Todo? Mesmo a última página? Se, por acaso, por venturosa coincidência, por miraculoso conjunto de circunstâncias, por virtude da brisa do poente, os seus delicados olhinhos se pousaram na modesta croniqueta que tive a ousadia de consagrar ao paizinho, à tia ou ao avó de Vocência? Ou simplesmente fingir que não sei que eles leram? Fazer como se “O Sesimbrense” não existisse ou eu nunca tivesse escrito? Naturalmente, nada disto é vital, mas desagrada, dá vontade de provocar um incidente diplomático.
Há também quem se sinta na obrigação de dizer qualquer coisa, sabendo que eu sei que leram o que escrevi. E então sai uma alusão elíptica, sintética, magra e insípida. Mas a honra está salva, não posso dizer que não deram sinal. Se eu estivesse longe, como já estive, não teria esta percepção, não sentiria este mal-estar. Porém, eu vejo, falo, sento-me à mesa com estas pessoas, é essa a diferença.
Claro, há o reverso da medalha. E por isso aqui estou, de novo. Porque o Zacarias, de longe, por gestos, me pediu para continuar. Quando há amizade, não são precisos discursos nem palavras rebuscadas, basta um sorriso cúmplice, uma piscadela de olho, o tal sinal de liques.
Volto porque o Luís Rafael Pinto se mostrou desiludido; porque o Xico me escreveu e telefonou de Sines; porque a minha antiga professora no Liceu de Setúbal, a Dra. Auzenda, faz questão de assinar o jornal e é uma pessoa maravilhosa; porque o tio do Afonso Maurício, o Eng. António Fonseca, me recordou a mensagem do general; porque a Micá exigiu que continuasse; porque a minha tia Lucinda me ia dando uma tareia; por isso, por aquilo, porque há pessoas que me dão vontade de escrever, de partilhar com elas esta saborosa aventura de vasculhar o sótão à procura de ideias, e de ajudar a preencher esta última página.
Volto, mas não venho fazer qualquer favor, não penso nem um segundo que faço falta. Ninguém faz verdadeiramente falta, e este episódio é apenas isso, uma peripécia insignificante.
O general disse aos soldados: “Se vocês recuam, morrem. Se avançam, morrem. Então, para quê recuar?”.
Por isso, não recuo. Fico é com mais responsabilidades e cada vez menos temas, menos assuntos, pois as fontes de inspiração não são inesgotáveis. Mas, enquanto for capaz e me der prazer, terão de me aturar. Depois, não se queixem. A culpa foi de todos quantos me ralharam, me pediram, me compreenderam e não me deram tréguas. Até ao meu regresso…
____________
* Publicado em O Sesimbrense de Janeiro de 1997.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 69

Frank Sintinas

António Cagica Rapaz

Foi o Manel António que me chamou a atenção para o homenzinho discreto, de boné, que guardava as sentinas. De facto, o homem era parecido com o Frank Sinatra, sobretudo de perfil. E desta forma nasceu a figura do Frank Sintinas, assim mesmo, pronunciado à nossa moda, à pexita.

As alcunhas, tão ao gosto da nossa gente, são muitas vezes mordazes, maldosas, cáusticas e raramente exprimem ternura. Neste caso, Frank Sintinas é fruto de inspiração benigna, imagem poética, só entre nós, como para arrancar o homem à banalidade cinzenta de uma existência obscura, através de uma comparação resplendente. Esta alcunha, aliás, nunca chegou a ser divulgada, era apenas uma simpática brincadeira, um sinal de liques, jogo de cumplicidade, sem ponta de maldade. Pelo contrário, o modelo era admirável, Sinatra, o som inesquecível da bossa nova no crepúsculo, naquela hora mágica em que o sol se põe por trás dos mastros altos dos veleiros ancorados na doca, de onde começavam a chegar os veraneantes, lobos do mar raso, vestidos de branco, bronzeados, em busca da noite...

As sentinas são os magníficos azulejos de Sesimbra, testemunhos de um passado que idealizamos, vestígios de um tempo que o ciclone levou e que alguns tentam desenterrar, esgravatando na areia da memória como os pescadores faziam, procurando moedas, fios e medalhas, mal acabava o vendaval.

As sentinas, como o jardim, eram o refúgio de pescadores idosos, remando contra a solidão, tertúlia de nostalgia, loja de companha de velhos de terra. O nosso Frank era o guardião do templo e do tempo, do bom tempo de pescarias fabulosas, do mau tempo de vendavais intermináveis, do tempo que a todos foge em cada maré vazia. O Frank Sintinas, sem saber, era conservador do museu, moderador de debates perpassados de melancolia, o passado eternizado nos azulejos. Frank Sintinas é a ironia inocente que nos leva a contemplar com um sorriso, sem pretensões moralistas, sem dogmas nem ilusões, velhos de terra que nós já somos também...

1992

sábado, 17 de setembro de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 70

Superveniente*
António Cagica Rapaz
Há tempos a minha tia Lucinda fez-me chegar uma mensagem segundo a qual a tia Líbia gostaria de me ver. No universo já meio quimérico das férias da minha meninice, nas Caixas, a tia Líbia não era figura predominante, talvez por morar muito longe da minha casa, aí a uns bons oitenta ou cem metros, o que era considerável na minha minúscula aldeia. O meu centro de gravidade situava-se algures entre a casa do tio Júlio e da tia Clarisse, por um lado, e a do tio Justino e da tia Conceição por outro.
A tia Líbia tinha duas filhas, um filho e um marido epiléptico. O filho, o Bernardino, não era meu companheiro assíduo de brincadeira nem das fainas agrícolas. O nosso relacionamento era mais distante, não havia a intimidade que tinha com o Julinho, por exemplo.
Os anos passaram, a nossa infância ficou mais longe, diluída na ribeira dos Torrões, e só muito mais tarde voltei a encontrar-me com o Bernardino. E se a tia Líbia agora me queria ver tal se deve em grande parte a esse encontro que ocorreu em meados de 1971 no cenário agreste, ventoso, detestável, do Campo de Tiro da Serra da Carregueira.
Depois de Mafra e do Porto, fui ali colocado e designaram-me para chefiar a Unidade de Mobilização que era, no fundo, a secretaria geral da soldadesca ali incorporada.
Está bem de ver que aquilo para mim era chinês, mas tropa é assim, obedece e desenrasca. Felizmente havia o sargento-ajudante Manso que de facto me ajudou muito, apesar de ser um bocado surdo. Ele é que sabia de requerimentos, notas e outra papelada e, graças às suas indicações, lá fui levando a água ao meu moinho, conservando a escrita em dia, ou melhor, em meio dia porque à tarde eu estava autorizado a sair para os treinos do Belenenses.
A certa altura a minha curiosidade foi espicaçada ao verificar que os vários processos de amparo de família que por ali passavam eram todos, mas mesmo todos, sem excepção, arquivados, caixote do lixo. Admirado, perguntei ao Manso o porquê de tal procedimento e ele explicou-me simplesmente, dizendo que não eram supervenientes. Trocado por miúdos significava aquele palavrão que os rapazolas não tinham metido os papéis na devida altura, “atempadamente” como agora se ouve dizer.
Os processos de amparo deviam ser obrigatoriamente apresentados pelos mancebos (assim era designada a carne para canhão) no dia em que iam à inspecção. Ora está bem de ver que, nesse dia, nenhum mancebo, por mais cebo que tivesse entre os dedos do pé esquerdo, tinha o menor conhecimento das leis, regras, disposições ou regulamentos militares.
Sofridos e amargurados eles iam, com o rabo entre as pernas e a pila à mostra, desfilar diante do júri que lhes aplicava sem hesitar o caminho de apurado nos lombos magrizelas. Alguém imaginava que era logo nesse dia que se tratava do processo de amparo? E o que era isso dos processos de amparo? Eles queriam era fugir dali sem olhar para trás.
Segundo acto: o mancebo, transido de frio e medo, era incorporado no Campo de Tiro onde não aparecia como no arraial da festa das Chagas uma loiraça a perguntar “ó simpático, vai um tirinho?”.
Passado algum tempo começaram a ouvir dizer que havia quem saísse da tropa por amparo de pai ou mãe e, vai daí, alguns apressavam-se a falar com o médico de família, iam à Junta de Freguesia e às Finanças e reuniam os documentos todos que entregavam cheios de esperança na tal Unidade de Mobilização. O Manso mandava-os para a Amadora ou para o Quartel General, já não sei bem, e depois voltava tudo para trás com a menção “arquive-se”. Ponto final, morria ali a esperança. Porquê? Porque, como explicava o sargento-ajudante Manso, não eram supervenientes. Queria ele dizer na sua que a doença do pai ou da mãe só podia ser tida em consideração se tivesse acontecido depois do dia da inspecção. Ora praticamente todas as doenças invocadas e atestadas pelos médicos já tinham anos e anos pelo que deviam ter sido expostas no dia da inspecção. Como nunca era, por desconhecimento natural dos rapazes, vinha tudo para trás, arquive-se, caixote do lixo, inapelavelmente.
Como nunca gostei de pactuar com injustiças, resolvi procurar uma solução, uma artimanha para contornar esta legislação monstruosa e viciada. Com algum receio, o Manso lá me bichanou ao ouvido que a única forma era tornar o caso superveniente, ou seja, posterior à inspecção. Tal significava alterar as datas do atestado médico, da Junta de Freguesia, etc.  
Só que sugerir, aconselhar aos rapazes estas falcatruas era um exercício altamente perigoso. Estávamos em 1971 em plena guerra colonial e o risco era enorme, no mínimo prisão de Caxias, forte de Elvas, sei lá, Tarrafal, não faço ideia.
Na altura, para ser sincero, não me lembro se pesei os prós e os contras. Recordo-me de ter telefonado para a Amadora a um tal tenente Luís perguntando se não podíamos dar um jeito, ajudar os rapazes. A resposta foi agressiva, cínica, avisando-me de que não me metesse nisso porque era perigoso e depois se eles não trataram das coisas a tempo era com eles, paciência, que se lixassem. Se já estava indignado mais revoltado fiquei e foi nessa altura que me veio parar às mãos o processo do Bernardino. Eu nem sabia que ele estava lá na Carregueira, mas ao ver o processo lembrei-me dos ataques epilépticos do pai e decidi fazer qualquer coisa, não pensei no risco, procurei apenas ajudá-los, a ele e à família. Porque era justo, eu sabia que era verdade tudo quanto estava no processo. Por isso havia que torná-lo superveniente. Chamei o Bernardino, expliquei-lhe tudo muito claramente e ele lá foi, antes de tudo, falar com o Dr. Leite, o bom doutor de Santana, que lhe aldrabou novo atestado fingindo que a epilepsia do pai era recente. O resto foi só reajustar as datas dos outros documentos e lá voltámos à carga. Agarrei no novo processo e enviei-o com o coração apertado.
Depois dele foram vários, quatro, cinco, não sei ao certo, desconhecidos, não sei se sinceros se golpistas, pouco me importava. Estava ao meu alcance ajudá-los e foi o que fiz, fiz o que pude, despachando vários processos aldrabados, recauchutados, à graça de Deus. Hoje apercebo-me do risco gravíssimo que corri. Mesmo sem denúncia, bastava que alguém se lembrasse de comparar os processos refeitos com os originais para ver que havia aldrabice. E não teria sido difícil saber quem era o responsável.
Felizmente não houve incidentes. Pelo contrário, meses depois recebíamos na Carregueira notas informando que os soldados tal e tal, já colocados noutras unidades, tinham passado à disponibilidade por amparo de pai ou mãe. Eu ficava contente por eles, apesar de não saber quem são.
O Manso, discretamente, sorria-me.
Feliz também ficou a tia Líbia quando o Bernardino disse adeus às armas e voltou para casa. Agradecida, levou um coelho à minha mãe. em parte também o Manso merecia agradecimento. Por isso, de alguma maneira, foi um coelho Manso…
Estes factos são autênticos, poderão ser verificados se no Quartel General restarem arquivos desse tempo. Apetece-me contá-los depois da visita que a tia Líbia me fez na Aiana, para me abraçar com a força dos seus 82 anos de sofrimento e labuta permanentes. E sentida gratidão, decerto.
Hoje tenho uma consciência mais nítida dos riscos enormes que corri. Uma denúncia ou uma olhadela mais atenta aos processos poderia ter tido consequências gravíssimas para mim. Não sei se na altura reflecti seriamente, só sei que senti o dever moral de fazer o que estava ao meu alcance para combater uma dupla injustiça, a guerra e uma regulamentação viciada.
Foi a minha maneira de lutar contra um sistema iníquo e hoje sinto, se não orgulho, pelo menos a consciência do dever cumprido. Estava ao meu alcance e fiz. Não encolhi os ombros nem pactuei activamente como esse tal tenente Luís (por sinal também miliciano), antes agi e, felizmente para aqueles rapazes, com sucesso positivo.
Não me considero um herói, não peço à Câmara uma rua ou beco com o meu nome, basta-me a recordação da emoção da tia Líbia. Por ela e por todas as outras mães valeu a pena.
Mas também é verdade que, apesar de não ter na lapela o emblema nem constar da lista dos heróicos lutadores antifascistas, provavelmente terei feito mais que muitos conjurados da bica e bagaço que andaram tão escondidos em luta clandestina que ninguém deu por eles, ninguém descobriu rasto dos seus actos.
No fundo não mereço recompensa por que me limitei a aldrabar. É certo que se tratava de um poder injusto, mas não é bonito mentir. Por outro lado, a tia Líbia deu-me um coelho, é mais do que suficiente.
E já agora terminemos com um sorriso sobre a atitude de muitas pessoas e com uma alusão à guerra colonial: “Mesmo que viremos a casaca, a gola é nossa…”

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*Publicado em O Sesimbrense de Dezembro de 1995.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 68

Galé

António Cagica Rapaz

Estava-se nos fins da década de 60 e o Desportivo vivia o período mais eufórico da sua existência, numa luta apaixonante para subir à 2ª divisão tendo pela frente o poderoso Farense e atrás de si uma vila inteira louca de entusiasmo e de fé. Era um espectáculo permanente, uma alegria contagiante de toda uma população orgulhosa dos seus rapazes capitaneados pelo lendário Valdemar e embalados pelas melodias do Mário Regalado e seus comparsas que punham Sesimbra a vibrar ao ritmo do “Ribolé, ai leva, leva lé, olha a Sesimbrense, olha a Pastorinha”, festa rija, de sabor autenticamente popular, bem da nossa terra, a cheirar a sardinha assada em ruas perfumadas com alecrim.

A música dos Galés tinha essa coisa maravilhosa que é a pureza, sabia a Sesimbra, tinha a cor do mar, o fulgor do nosso sol, um coro de gaivotas, falava das nossas traineiras, tinha ritmo e raízes, era nossa. Os Galés assentavam arraiais no Café Martelo, na Galé, ao tempo nas mãos do Hermínio Pinhal, antigo jogador do Desportivo, que não se fazia rogado para pegar nos ferrinhos ou dar uns toques na bilha do Mantas...

A Galé é um local privilegiado, primeiro balcão bem de frente para o espectáculo deslumbrante e permanente que é o mar.

Naquele tempo, as barcas e as traineiras vinham, ao cair da tarde, juntar-se diante da lota e era um quadro bonito e cheio de vida, com as cores vistosas das embarcações, as camisolas aos quadrados dos pescadores, o vaivém das chatas, a cantilena dos vendedores, o gelo do Chanoca, o café do Zé Maria, um cenário colorido, o mais belo cartaz de Sesimbra.

Hoje, da Galé, vejo os pescadores que passam com um balde de plástico na mão. Andam devagar como os figurantes de uma peça de teatro que atravessam o palco. Ali em frente, junto ao muro, passam caras conhecidas, casais que não trocam palavra, que cumprem um ritual, como se fossem atrás da procissão, em passo lento, levados pela cadência das ondas.

À boca da noite, o mar fica mais azul e o ar mais fresco. Na varanda da Galé ficamos a sós com o oceano infinito, testemunha do tempo. É a magia do anoitecer, a hora a que, noutro tempo, as mães chamavam pelos filhos que brincavam nas ruas estreitas. O jantar na mesa, a telefonia só conhecia o fado, os barcos baloiçavam docemente em frente à praia. Hoje, da Galé, avista-se o novo pontão que uma traineira dobra no silêncio do crepúsculo, uma luzinha no mastro.

Na linha azul do horizonte recorta-se a sombra da “Pastorinha” e, ao longe, ouve-se a melodia suave da gaita de beiços do bom António do Porto. Cai a noite na Galé...

1994

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 69

Antero do Quintal*

António Cagica Rapaz

A língua portuguesa é um mar profundo onde por vezes naufragamos quando nos aventuramos insuficientemente apetrechados, mas é também um mar rico, com marés cheias de termos e expressões curiosas, interessantes, por vezes carregados de ambiguidade e duplos sentidos que nos atiram de gargalhete para a praia da malandrice e do trocadilho.

Costumo ler com muito agrado os escritos esclarecedores do Dr. Manuel Nabais no Jornal de Sesimbra e aplaudo a feliz iniciativa que tomou em tão boa hora.

A sua recente evocação da figura de Antero de Quental nasceu da observação de uma incorrecção detectada no nome do poeta, mais concretamente na partícula de erradamente substituída por do.

A abordagem que faz é correcta e teve o condão de me segredar meia dúzia de ideias irreverentes que de vez em quando me atravessam um espírito por norma cândido, ingénuo e inocente…

Ora (aqui começa a viagem atrevida) a mim não me choca que o poeta açoreano se chame Antero do Quental. Vou mesmo mais longe, ele deveria chamar-se Antero do Quintal. Primeiro porque na nossa terra já houve um Antero da horta, da horta da Aninhas (ali ao pé da Marconi). Era o Antero da Aninhas, bem o conheci.

Depois, é mais apropriado para um poeta ser Quintal e não Quental. E quem tal negar é porque não sabe rimar. Quintal evoca natureza, árvores de fruto, beleza de hortaliça, capoeiras, passarinhos a cantar, aquela lengalenga bucólica do costume. Por isso cada vez mais me convenço de que Quintal é bem mais adequado. Portanto, desculpe lá Dr. Nabais, o engano não está na partícula mas no apelido. Está certo do mas não é Quental e sim Quintal, Antero do Quintal.

Posto isto (que me parece lógico e perfeitamente demonstrado) restam-me dúvidas e ainda esta noite dei comigo a pensar com os meus botões de punho”António, deixa os poetas em paz, assim NABAIS longe”. Mas agora já está, os dados estão lançados, prossigamos no raciocínio delirante mas não tremente.

Por esta ordem de ideias, o Antero do Pão acaso seria Antero de Pão? E já agora, ambiguidade por ambiguidade, não seria Antero do Pau como o pirata da perna de dito?

E a localidade será Cruz de ou do Pau?

A partícula de confere sentido mais lato e mais lata preciso eu de ter para vos dizer que Joaquim do Moinho é só daquele, não é de todos os moinhos. Antero do Quintal é só de um enquanto Zé das Abóboras é de todas, sem excepção. Mais rigoroso e exacto era o “Quilo e meio de papas”, nem mais um grama (e não uma grama como vulgar e erradamente por aí se ouve).

Esta polémica é antiga e atravessou fronteiras. Inspirou até uma canção, nos anos cinquenta, a um cantor sul-americano, não sei se o Lucho Gatica se o António Machin. Na sua versão original intitulava-se “Olá Quintal”, mas desvirtuou-se e acabou em “Olá que tal”, como te vás, etc. e tal, olá que tal”.

Estamos perante uma questão de grande subtileza, pois dizer o Zé do Central” não é o mesmo que referir “o Zé de Central”. Neste último caso pode maldosamente pensar-se em prisão central ou banalmente em bancada central, se o peão estiver esgotado.

Dizem as más línguas que esta confusão entre do e de teve a sua origem num conhecido defeito de pronúncia de um antigo (que deseja ser futuro) chefe de Estado o qual, ao ler o nome do poeta, disse “Antero de Quental”onde estava “Antero do Quental”.

Enfim, é informação que dou um tanto à socapa, sob sérias reservas, visada pela comissão de censura e a bem da Nação. Sim, porque é complicado. Se não, reparem: António do Olho (Qual?) não é o mesmo que António de Olho (à Belenenses? à Benfica?).

Isto tem que se lhe diga, para falar de de e do é preciso dedo, não é coisa fácil.

Por exemplo, há muitas caras de bacalhau, mas só uma é cara do Bacalhau, aquele calmeirão da praça do peixe que aliás deveria ser de peixe pois não é só um mas todos ou quase. Mas quem vê caras não vê corações e até o Ricardo era Coração de Leão e não do Leão porque esse assa frangos saborosos ao pé do Canino. E por aí fora se poderia ir na busca incessante de trocadilhos mais ou menos conseguidos. Mas haja mesura e fiquemos por aqui, não sem antes pedir desculpa ao Dr. Nabais pela brejeirice com que entrei no seu quintal linguístico tão bem cultivado.

E já agora uma última laracha que me surge a propósito dos jogos de palavras e dos jogos de futebol. O treinador do Sporting afinal não sai do Clube. Pelo menos os adeptos leoninos, cansados de tanta contrariedade, não esperam mais essa de Queirós…


*Publicado originalmente em O Sesimbrense.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 67

O tio Nuno

António Cagica Rapaz

Ao Luís Filipe

Os rapazes da minha geração foram à catequese na igreja de cima, com o padre João, fizeram a comunhão solene, alguns a confirmação ou crisma, e construíram um ideal de vida assente na família, com a mística das novenas, a Festa das Chagas, a procissão imponente e comovente, o pitoresco profano dos santos populares e a ternura do presépio envolto em cânticos celestiais na missa da meia noite.

A família não se compra como as figuras do presépio que construíamos com cortiça das armações e o musgo do ribeiro. Bem teria gostado de ter tido uma família com muitos irmãos, primos, avós, gente boa e amiga à volta da mesa, ao pé da chaminé. Mas não tive. Quis, porém, o destino que tivesse vivido, em épocas e lugares diferentes, junto de famílias à imagem da minha idealização.

Durante alguns anos, na minha adolescência, na noite de Natal, fui à missa do galo e partilhei a consoada em casa do senhor Nuno Cardoso que era, para todos nós, o tio Nuno, um homem maravilhoso, de rara qualidade, bondoso, gentil, generoso, tolerante, de gosto apurado e com uma pontinha de malícia deliciosa.

O seu presépio era um universo de harmonia, mesura e poesia, numa recriação inspirada no amor que punha em cada gesto. Naquela noite, o tio Nuno era o Pai Natal que tinha uma prendinha para cada um de nós. Mas a dádiva maior era a sua amizade, delicada e pura, o seu sorriso e a sua bondade.

Durante anos tive a felicidade da sua convivência, em particular na Cotovia, em domingos inesquecíveis iluminados pela espiritualidade da sua presença, do seu fino humor, da sua irreverência benigna.

O tio Nuno deixa-nos uma recordação luminosa, o apurado sentido estético e ético da existência, a suavidade do trato e a pureza de sentimentos. Com o tio Jojó e a D. Stella, formava uma trindade maravilhosa.

Quando passardes no largo da igreja de cima, olhai as janelas da casa de esquina. Ali viveu um homem admirável que partiu na Primavera de 1976. Treze dias depois foi-se-lhe juntar a minha mãe que tanto apreciava a sua companhia nas tardes da Cotovia. Quem, como ele, era bom, generoso e gentil, só podia partir na Primavera, tinha de ser em Abril...

1982

segunda-feira, 11 de julho de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 66

Pepita

António Cagica Rapaz

A minha mais remota recordação do Mário Martelo situa-o num recinto de cimento, com tabelas, junto ao velho balneário do Desportivo, nos primeiros anos da década de 50, onde os adultos jogavam voleibol e os miúdos se esfalfavam atrás de bolas de borracha saídas na farinha Amparo ou nos rebuçados das cadernetas.

Volvidos anos, habituei-me a vê-lo entre o Central e o Filipe, em fins de tarde, em noites de lota, junto do Chico Cagica e da Maria Eugénia.

O fim do dia era bonito na esplanada do Central, na suavidade do entardecer, com as senhoras arranjadas, refeitas da praia, o bronzeado a sobressair na alvura das blusas, toda uma atmosfera de elegância preguiçosa, sem pressas, a noite era uma promessa renovada em cada maré.

À discrição e certa timidez do Mário respondia a Pepita com desassombro, vitalidade fulgurante, temperamento de fogo e aura vibrante. A Pepita é a franqueza absoluta, sem rodeios, sem trejeitos nem pruridos, entusiasmo e omnipresença, um vulcão que o tempo não adormeceu. Deu o nome a uma traineira, encheu a baía, encheu Sesimbra, com a sua graça, a sua raça, a sua alegria luminosa, mulher de pirata que não receia o rugir dos canhões nem o fogo de Santelmo. A seu lado, do alto do torreão da Galé, o Mário contempla com enlevo a Pepita que volta do mar carregada de sardinha, festejada por mil gaivotas endiabradas, em voos circundantes, recortadas no céu azul de manhãs que só existem no vértice mais puro e sublime das nossas recordações. Ou das nossas ilusões...

As traineiras já não vêm ancorar junto da fortaleza, a lota esconde-se na doca. Ficou a nostalgia da festa dos archotes, do recorte difuso das barcas ali a duas braçadas da praia, do gelo do Chanoca, do burburinho da lota, do perfume das férias, da magia do Verão, do sortilégio da noite, com botas de água e saltos altos.

O Mário e a Pepita simbolizam uma época, um estilo de vida muito partilhada, muito convivida, na praia, na lota, na esplanada, na rua, sempre com calor, com amigos à volta, com certa exuberância saudável e colorida, porventura a alma espanhola a abanar a melancolia lusitana...

1997

sexta-feira, 8 de julho de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 66

A nossa terra, a nossa gente*
António Cagica Rapaz
A França tem sido ao longo dos séculos berço de cultura em sentido lato, farol de artes e letras, correntes de pensamento, filosofia e reflexão.
A Revolução Francesa, os Direitos do Homem, a História passa pela França. Ora esta mesma França atravessa actualmente um problema de identidade, em grande parte resultante do figurino que a ideologia impôs ao País. Dir-me-á o meu primo Leopoldino, lá de trás do balcão da loja do Luís Borges, que lhe dá maior preocupação a descida do Belenenses à segunda divisão do que os problemas sociais em França. E assiste-lhe perfeitamente esse direito. Porém, as vagas da realidade internacional acabam por chegar à Fortaleza, mesmo se Portugal fica no fim da Europa e Sesimbra está protegida por pontões e muralhas de má morte.
Por norma, no nosso jornal, que é só para a malta da nossa rua, concentro as atenções na nossa terra, na nossa gente. Contudo, de vez em quando, não será mau alargar os horizontes, olhar para lá do mar da Pedra.
A França está a ser sacudida por tensões e escândalos que põem a nu um mal estar pronunciado. A França está doente, está a eructar, não por causa da maldita corvina, mas dos excessos de condimentos ideológicos que azedaram. E o mal vem, entre outras razões, do facto dos responsáveis políticos (de esquerdas e direitas, note-se) terem como preocupação não o bem estar geral, mas os seus interesses, privilégios e conveniências pessoais.
No poder ou na oposição, o tacho está garantido, a taluda sai sempre aos mesmos, ora agora governas tu, ora agora oponho eu.
Na minha opinião, meu caro Leopoldino, a França (e outros países) é governada por pessoas que não conhecem nem querem conhecer a realidade quotidiana, terra a terra. Só descem do alto da sua pirâmide de cristal em vésperas de eleições. Nessas alturas  afivelam a máscara da simpatia, vão aos mercados, andam na rua, falam a este, cumprimentam aquele, sorriem ao outro, na caça ao voto. Depois nunca mais alguém os vê, adeus ó população…
Em 81 Miterrand foi eleito basicamente porque prometeu mudar a vida aos franceses. Que os choques petrolíferos eram invenção da direita para justificar a austeridade e desculpar uma má gestão. E, sobretudo, iria a acabar com o desemprego, criaria um milhão de postos de trabalho para os jovens.
Prometeu este mundo e o outro, sem pudor nem mesura.
Dez anos volvidos, um milhão, mais que isso, é o número de desempregados que a gestão socialista acrescentou aos que já existem. Os jovens revoltam-se, o desencanto é visível, o mal estar alastra, agravado pela ostentação da sociedade de consumo em que vivemos, com a exibição quase provocante de mil artigos aliciantes à mão de ceifar, mas longe do miserável poder de compra da maioria desses jovens.
A juventude dos arredores de Paris, na sua maioria de origem árabe, do norte d’África, tem vindo a atacar lojas e centros comerciais, incendiando carros, pilhando estabelecimentos. É a revolta através da violência, a explosão do descontentamento, perante a passividade de um poder que confunde tolerância com abandalhamento, que dá mais apreço aos delinquentes do que às vítimas.
É compreensível a desorientação, a angústia dos jovens sem trabalho e sem perspectivas de futuro, mas não é admissível, num país de livre expressão democrática, que o descontentamento se manifeste através de assaltos, de agressões que já causaram mortes, de violência bestial.
Há alguns anos, um homem de raça negra que vivia em Sesimbra, dizia na sua simplicidade «o respeitinho é muito bonito». É simples e bem verdade. Um pai não deixa de gostar do filho só porque é obrigado a dar-lhe uma palmada no rabo. A mão que castiga apropriadamente não deixa de ser generosa e amiga. É uma filosofia simples que a ideologia socialista não aceita. Um grupo de vândalos agrediu há dias uma senhora e o filho que é diminuído físico. A senhora morreu e os agressores estão à solta. A televisão ignorou totalmente o drama, mas se a vítima é um ladrão cai o Carmo e a Trindade. Sucedeu recentemente e até o Primeiro Ministro foi visitar a família da «vítima» que assaltara, roubara, incendiara…
Ninguém pode regozijar-se com a morte de um jovem, mas a autoridade não pode desaparecer. A repressão justa não impede a prevenção. Todos temos direitos, mas também temos deveres. O Mundo está doente, foi a guerra do Golfo, o drama dos kurdos, a Etiópia, o assassinato de Ghandi, é a fome, é a sida, é o caos. Amanhã virão os famintos de África e de Leste à procura de pão. A ideologia é uma droga, transfigura a realidade. Durante anos esconderam-nos o que se passava a Leste e a verdade está à vista.
O capitalismo é assustador quando só visa o lucro, provocando despedimentos dramáticos, quando incita à competição desalmada, deixando pelo caminho os menos aptos. Vive-se numa sociedade em que há cada vez mais exclusão.
Vai longe o tempo do empregozinho garantido, da tranquilidade. Hoje é a angústia do dia de amanhã, a degradação da qualidade de vida, em toda a parte, em Sesimbra também. Por isso, meu caro Leopoldino, prefiro evocar tempos recuados, com certa nostalgia, alguma pieguice, uma pontinha de lirismo, um raminho de melancolia ou um toque de malandrice, conforme as circunstâncias. Bem basta o que basta…
Claro, não é com raminhos de salsa que vamos endireitar o Mundo. Precisamos de gente honesta, só isso e não é fácil. Se houvesse verdade e honestidade, não haveria Oposição mas Aposição, todos juntos a trabalhar para o bem comum. Mas Homens dessa dimensão perturbam, incomodam, estragam os arranjinhos. São afastados, perseguidos e, às vezes, acontece-lhes um azar, um acidente de avião, por exemplo…
Desculpa se hoje andei noutros mares. Na próxima, voltarei ao reminho pela borda d’água até encalhar de gargalhete na praia da Califórnia.
O Mundo está doente, valha-nos a nossa terra, a nossa gente…
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* Publicado em O Sesimbrense de Junho de 1991.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 64


António Cagica Rapaz

Por uma bela tarde de Verão, no início dos anos cinquenta, a tia Stella tomou corajosamente o volante do delicioso Ânglia preto rumo à Cotovia onde o tio Jó tivera a insólita lembrança de construir uma casa, no alto da charneca, num ermo, bem longe do mundo civilizado que girava em torno do Grémio e do Central.

No seu desejo de evasão fora acompanhado pelo tio Né, o garboso comandante dos Bombeiros, Hernâni Baptista.
A Cotovia era também o domínio de quatro rapazolas naquele paraíso protegido por soberbos pinheiros mansos, com bicicletas, espingardas de pressão de ar, ratoeiras para os pássaros, um mundo de aventuras que me fascinava. O entusiasmo levou-nos a combinar uma arriscada expedição para irmos armar aos pássaros na manhã seguinte. O melhor seria ficarmos lá, dormirmos na Cotovia. Eu dormi com o Luís Filipe e foi o início de uma bela amizade...

Assim nasceu a minha paixão pela Cotovia onde passei alguns dos mais agradáveis momentos da minha vida, graças à bondade do tio Jó e à paciência da tia Fernanda. O Luís Filipe vinha dar uns toques cabazeiros nos matraquilhos onde ele e o Joca eram fregueses certos da dupla que formei com o Zé. Enquanto a Carmelinda e a tia Fernanda limpavam a loiça, o António adormecia agarrado à telefonia a ouvir o relato e o tio Jó trocava dois dedos de conversa com o Jorge enquanto o Chico não chegava. O compadre Artur nunca tardava e o tio Nuno via-se aflito para impedir a Miss de cravar o dente no pudim que acompanhava o café suave que a aguardente do Jorge iluminava.

Muitos anos depois, voltei à Cotovia, a meio do ano, a meio da vida, em breve escala. Jantámos, conversámos longamente e preparámos o farnel para a expedição da caça na manhã seguinte.

Foi uma decisão repentina e inesperada. Precisávamos de falar, havia anos de certa distância, eu vivia em França, tínhamos muita coisa para contar, para evocar, para partilhar. Dormi na cama do Zé, bem enrolado nos cobertores, sensação agradável de conforto, ao desafio com a frescura húmida da noite.

Quase como dezenas de anos antes, acordei cedo para ir à caça. O tio Jó levou espingarda, mas não deu um único tiro. Eu levei um cajado e o saco do farnel. Percorremos quilómetros, embriagados pelo ar puro da manhã, mal nos preocupámos com coelhos ou perdizes. Apenas matámos saudades, antes aproveitámos o nascer do sol, a cumplicidade da natureza para conversar, muito, num diálogo a sós, único, inesquecível, entre homens, entre amigos, com muita ternura e cumplicidade. Há acontecimentos assim na nossa vida, e naquela manhã solitária e deslumbrante partilhámos muito mais do que o farnel e o cantil do vinho...

Na Cotovia das minhas recordações o Outono era eterno, havia sempre neblina e desejo de carapaus secos. E a Cotovia era, sobretudo, o tio Jó, um homem maravilhoso, admirável de bondade, inteligência, alma de artista, nobreza de sentimentos, delicadeza, trato fino, humor subtil, bom gosto, sentido estético, numa permanente celebração da vida. E uma franca generosidade, o prazer de partilhar a sombra doce do enorme pinheiro do altinho de S. João, a mesa, o convívio fraterno.

A caça, para ele, era apenas o pretexto para um bocado de exercício e estar com os amigos. A velha garagem foi transformada numa “Toca” acolhedora, com as relíquias e recordações da caça, o cantinho dos petiscos, o calor da amizade.

O Jorge era o seu velho mestre de armas que conhecia os cantos à casa, os abrigos, a direcção do vento, o canto dos pássaros.

Sem eles, a Cotovia não faz sentido...
1997