quarta-feira, 14 de setembro de 2011

LÍBERO E DIRECTO, 19

Fado

António Cagica Rapaz

O sol entra tarde na estreita rua da Esperança onde as manhãs frescas trazem consigo um cheirinho a maresia. Na taberna do Manel o fado substitui o sol preguiçoso, e o Toni de Matos canta os amores difíceis da Maria do Céu (que nasceu e cresceu na Madragoa) com o Chico que mais ama o mar do que o Céu da Maria.

Enquanto a tia Lucília pendura a gaiola dos canários à porta, os miúdos partem para a escola, assobiando, e o Tonecas, ainda a mastigar o papo-seco matinal, dirige-se para a oficina do sô Silva, bate-chapa e retoques na pintura. É uma manhã de Lisboa…

À hora de almoço, o Tonecas corre para casa onde a mãe já fritou os carapaus. A rua adquire a sua animação habitual, com as vizinhas em diálogos cruzados de janela a janela, entre duas camisas penduradas. Na taberna do Manel é ainda o fado, quente e aristocrático, de Maria Teresa de Noronha, até ao noticiário da uma, na Emissora.

Depois de comer, o Tonecas mete duas tangerinas nas algibeiras largas do fato-macaco e vai sentar-se ao sol, no passeio, em frente da casa da Mariana. É um namora discreto, quase envergonhado…

Quando a noite começa a cair sobre Lisboa, a luz da tasca do Manel recorta-se nas pedras da rua e ouve-se a voz do Carlos Ramos pedindo a alguém para não vir tarde.

A vida decorria tranquila e rotineira quando, um dia, na taberna do Manel, à hora do vinho e à luz de um fado do Tristão da Silva, o sôr Alfredo (sócio dos Águias da Luz e conhecedor em coisas de bola) se abeira do Tonecas e o convida para um treino, à experiência, com os craques do seu glorioso clube. O Tonecas olha-o, surpreendido e intimidado, incrédulo e desconfiado. Ele num treino com as vedetas do futebol?! E então? – replica o sôr Alfredo que o observara dias a fio, à hora do almoço, após o paleio e o galanteio. Jeito não faltava ao Tonecas, disso ninguém duvidava, só ele próprio descria. O sôr Alfredo insiste, afiança, garante, aposta, seguro da sua experiência e do seu faro infalível.

O Tonecas, de garrafa na mão e cabeça à roda, passa diante da casa da Mariana sem dar os dois habituais toques na vidraça, mais em jeito do que em ousadia…

Enquanto come o feijão com arroz e o pão com chouriço, vai imaginando, através da garrafa mágica de tinto da quartola do Manel, o que irá ser o treino com os ídolos da sua juventude. Até aqui o futebol tem sido a sua grande e única paixão, mas uma adoração distante, marcada pela timidez e pela modéstia de filho de um embarcadiço que se esqueceu de regressar, e pelas nódoas de óleo no fato-macaco de bate-chapa de bairro.

Depois de jantar, vai dar uma volta, desce à beira do Tejo e contempla os horizontes que a eventualidade imprecisa de um treino já traça no seu espírito alterado. Depois de beber um bagaço arrojado ao balcão do Manel, e mais tarde do que o costume, volta a casa onde a mãe ficara a ouvir o teatro da Emissora.

Mal adormece e já se vê de camisola vermelha, correndo, driblando, marcando golos no estádio vazio onde só o sôr Alfredo e meia dúzia de adeptos ferrenhos aplaudem com entusiasmo. No final do treino, os craques felicitam-no, antes do melhor duche da sua vida. Sorri e regala-se sob a água quente, sente-se um herói. A mão treme-lhe ao desenhar o risco ao lado nos cabelos molhados que descem sobre um rosto iluminado por um sorriso resplendente. Dois directores esperam-no ao lado do sôr Alfredo e, ali mesmo, fica combinado um jantar no fim do qual, entre o charuto e o uísque, ele assina o contrato. No seu devaneio onírico, o Toneca vê-se ao volante de um carro descapotável como nunca entrara na oficina do sô Silva, tendo ao lado uma loiraça bem diferente da doce mas modesta Mariana. Num apartamento moderno, para as bandas de Benfica, anda numa roda viva, sem tempo para uma saltada à rua da Esperança nem memória para a mãe, os amigos ou a Mariana. Esqueceu o fado, as guitarras vibrantes e o tinto do Manel, tendo passado a frequentar cabarés duvidosos, com música ruidosa, mulheres espampanantes e champanhe de segunda.

Até que dá por si a esbanjar dinheiro e saúde, afastado da equipa, desterrado para divisões secundárias, no soturno esquecimento de tabernas tristes, sem fado nem amigos. Vê a sua pobre mãe envelhecida e prostrada, Mariana resignada e infeliz, casada com outro, enquanto o sô Silva trespassa a oficina.

Ao acordar, salta vigorosamente da cama, aperta nos braços e beija repetidamente a mãe surpreendida, e corre a casa da Mariana. Grita-lhe que quer casar com ela e, ao chegar ao trabalho, exige que o sô Silva lhe garanta que nunca há-de trespassar a oficina. Nesse dia há mais fado no ar, o sol brilha com mais fulgor na rua da Esperança, o Tonecas faz malabarismos com a bola de borracha, depois do almoço, no meio da rua, e é levado em ombros pelos colegas, contagiados pela sua alegria.

E tudo isto para grande espanto do sôr Alfredo que continua sem perceber por que motivo o Tonecas não quer ir ao treino e se recusa a ouvir os prognósticos doirados sobre o seu futuro de vedeta dos Águias da Luz…

PS – O Tonecas e a Mariana casaram, tiveram muitos meninos e foram muito, muito felizes.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 68

Galé

António Cagica Rapaz

Estava-se nos fins da década de 60 e o Desportivo vivia o período mais eufórico da sua existência, numa luta apaixonante para subir à 2ª divisão tendo pela frente o poderoso Farense e atrás de si uma vila inteira louca de entusiasmo e de fé. Era um espectáculo permanente, uma alegria contagiante de toda uma população orgulhosa dos seus rapazes capitaneados pelo lendário Valdemar e embalados pelas melodias do Mário Regalado e seus comparsas que punham Sesimbra a vibrar ao ritmo do “Ribolé, ai leva, leva lé, olha a Sesimbrense, olha a Pastorinha”, festa rija, de sabor autenticamente popular, bem da nossa terra, a cheirar a sardinha assada em ruas perfumadas com alecrim.

A música dos Galés tinha essa coisa maravilhosa que é a pureza, sabia a Sesimbra, tinha a cor do mar, o fulgor do nosso sol, um coro de gaivotas, falava das nossas traineiras, tinha ritmo e raízes, era nossa. Os Galés assentavam arraiais no Café Martelo, na Galé, ao tempo nas mãos do Hermínio Pinhal, antigo jogador do Desportivo, que não se fazia rogado para pegar nos ferrinhos ou dar uns toques na bilha do Mantas...

A Galé é um local privilegiado, primeiro balcão bem de frente para o espectáculo deslumbrante e permanente que é o mar.

Naquele tempo, as barcas e as traineiras vinham, ao cair da tarde, juntar-se diante da lota e era um quadro bonito e cheio de vida, com as cores vistosas das embarcações, as camisolas aos quadrados dos pescadores, o vaivém das chatas, a cantilena dos vendedores, o gelo do Chanoca, o café do Zé Maria, um cenário colorido, o mais belo cartaz de Sesimbra.

Hoje, da Galé, vejo os pescadores que passam com um balde de plástico na mão. Andam devagar como os figurantes de uma peça de teatro que atravessam o palco. Ali em frente, junto ao muro, passam caras conhecidas, casais que não trocam palavra, que cumprem um ritual, como se fossem atrás da procissão, em passo lento, levados pela cadência das ondas.

À boca da noite, o mar fica mais azul e o ar mais fresco. Na varanda da Galé ficamos a sós com o oceano infinito, testemunha do tempo. É a magia do anoitecer, a hora a que, noutro tempo, as mães chamavam pelos filhos que brincavam nas ruas estreitas. O jantar na mesa, a telefonia só conhecia o fado, os barcos baloiçavam docemente em frente à praia. Hoje, da Galé, avista-se o novo pontão que uma traineira dobra no silêncio do crepúsculo, uma luzinha no mastro.

Na linha azul do horizonte recorta-se a sombra da “Pastorinha” e, ao longe, ouve-se a melodia suave da gaita de beiços do bom António do Porto. Cai a noite na Galé...

1994

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 69

Antero do Quintal*

António Cagica Rapaz

A língua portuguesa é um mar profundo onde por vezes naufragamos quando nos aventuramos insuficientemente apetrechados, mas é também um mar rico, com marés cheias de termos e expressões curiosas, interessantes, por vezes carregados de ambiguidade e duplos sentidos que nos atiram de gargalhete para a praia da malandrice e do trocadilho.

Costumo ler com muito agrado os escritos esclarecedores do Dr. Manuel Nabais no Jornal de Sesimbra e aplaudo a feliz iniciativa que tomou em tão boa hora.

A sua recente evocação da figura de Antero de Quental nasceu da observação de uma incorrecção detectada no nome do poeta, mais concretamente na partícula de erradamente substituída por do.

A abordagem que faz é correcta e teve o condão de me segredar meia dúzia de ideias irreverentes que de vez em quando me atravessam um espírito por norma cândido, ingénuo e inocente…

Ora (aqui começa a viagem atrevida) a mim não me choca que o poeta açoreano se chame Antero do Quental. Vou mesmo mais longe, ele deveria chamar-se Antero do Quintal. Primeiro porque na nossa terra já houve um Antero da horta, da horta da Aninhas (ali ao pé da Marconi). Era o Antero da Aninhas, bem o conheci.

Depois, é mais apropriado para um poeta ser Quintal e não Quental. E quem tal negar é porque não sabe rimar. Quintal evoca natureza, árvores de fruto, beleza de hortaliça, capoeiras, passarinhos a cantar, aquela lengalenga bucólica do costume. Por isso cada vez mais me convenço de que Quintal é bem mais adequado. Portanto, desculpe lá Dr. Nabais, o engano não está na partícula mas no apelido. Está certo do mas não é Quental e sim Quintal, Antero do Quintal.

Posto isto (que me parece lógico e perfeitamente demonstrado) restam-me dúvidas e ainda esta noite dei comigo a pensar com os meus botões de punho”António, deixa os poetas em paz, assim NABAIS longe”. Mas agora já está, os dados estão lançados, prossigamos no raciocínio delirante mas não tremente.

Por esta ordem de ideias, o Antero do Pão acaso seria Antero de Pão? E já agora, ambiguidade por ambiguidade, não seria Antero do Pau como o pirata da perna de dito?

E a localidade será Cruz de ou do Pau?

A partícula de confere sentido mais lato e mais lata preciso eu de ter para vos dizer que Joaquim do Moinho é só daquele, não é de todos os moinhos. Antero do Quintal é só de um enquanto Zé das Abóboras é de todas, sem excepção. Mais rigoroso e exacto era o “Quilo e meio de papas”, nem mais um grama (e não uma grama como vulgar e erradamente por aí se ouve).

Esta polémica é antiga e atravessou fronteiras. Inspirou até uma canção, nos anos cinquenta, a um cantor sul-americano, não sei se o Lucho Gatica se o António Machin. Na sua versão original intitulava-se “Olá Quintal”, mas desvirtuou-se e acabou em “Olá que tal”, como te vás, etc. e tal, olá que tal”.

Estamos perante uma questão de grande subtileza, pois dizer o Zé do Central” não é o mesmo que referir “o Zé de Central”. Neste último caso pode maldosamente pensar-se em prisão central ou banalmente em bancada central, se o peão estiver esgotado.

Dizem as más línguas que esta confusão entre do e de teve a sua origem num conhecido defeito de pronúncia de um antigo (que deseja ser futuro) chefe de Estado o qual, ao ler o nome do poeta, disse “Antero de Quental”onde estava “Antero do Quental”.

Enfim, é informação que dou um tanto à socapa, sob sérias reservas, visada pela comissão de censura e a bem da Nação. Sim, porque é complicado. Se não, reparem: António do Olho (Qual?) não é o mesmo que António de Olho (à Belenenses? à Benfica?).

Isto tem que se lhe diga, para falar de de e do é preciso dedo, não é coisa fácil.

Por exemplo, há muitas caras de bacalhau, mas só uma é cara do Bacalhau, aquele calmeirão da praça do peixe que aliás deveria ser de peixe pois não é só um mas todos ou quase. Mas quem vê caras não vê corações e até o Ricardo era Coração de Leão e não do Leão porque esse assa frangos saborosos ao pé do Canino. E por aí fora se poderia ir na busca incessante de trocadilhos mais ou menos conseguidos. Mas haja mesura e fiquemos por aqui, não sem antes pedir desculpa ao Dr. Nabais pela brejeirice com que entrei no seu quintal linguístico tão bem cultivado.

E já agora uma última laracha que me surge a propósito dos jogos de palavras e dos jogos de futebol. O treinador do Sporting afinal não sai do Clube. Pelo menos os adeptos leoninos, cansados de tanta contrariedade, não esperam mais essa de Queirós…


*Publicado originalmente em O Sesimbrense.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

LÍBERO E DIRECTO, 18

Eles não sabem

António Cagica Rapaz

Só a partir dos anos setenta os salários dos futebolistas começaram a subir de forma sensível. Em 72, salvo erro, o peruano Cubillas veio ganhar, no Porto, uns escandalosos 150 contos por mês, imagine-se…

Progressivamente, foi ficando mais funda a vala que separa o vencimento médio, digamos assim, da população e o ordenado das vedetas de futebol. Por outras palavras, até àquela altura, o que ganhava um jogador de futebol, mesmo dos melhores, não impressionava, não chocava nem causava incompreensão face à realidade das condições de vida no nosso País.

Também nesse tempo, e por força da lei da opção, eram raras as transferências dos jogadores mais emblemáticos que permaneciam toda a vida no mesmo clube de que se tornavam verdadeiros símbolos. Tal sucedeu com José Águas, Hernâni, Travassos ou Artur Vaz, por exemplo. Outros ainda acabaram por sair, em final de carreira, mas ficaram para sempre ligados ao seu clube de origem, como sucedeu com o Matateu ou o Eusébio.

Talvez por estas razões, as relações entre adeptos e jogadores eram de uma natureza afectiva diferente, havia admiração, claro, era como se fossem da família, mas, ao mesmo tempo, havia distância, certa forma de pudor, algum mistério, cada um no seu lugar. O adepto não ia para a bancada exibir-se, não era actor, apenas espectador, vibrante, apaixonado, mas apenas figurante.

Nos anos sessenta, fui testemunha de um episódio que nunca esqueci. Jogando contra um dos grandes, no seu estádio, perfilámo-nos para a habitual saudação ao público numeroso que aplaudia delirantemente os seus ídolos. Momentos depois, apercebi-me de que alguns deles, enquanto agitavam os braços, agradecendo os aplausos, pronunciavam palavras de desprezo e escárnio para os adeptos que, naturalmente, lá longe, nas bancadas, nada podiam ouvir, apenas viam gestos e sorrisos postiços.

Admito que houvesse boa dose de irreverência e chalaça, mas ficou-me essa imagem de sobranceria e desrespeito pelos ingénuos admiradores…

Por isso me causa uma impressão estranha ver homens, mulheres e crianças, autenticamente mascarados, com a cara e o cabelo pintados, com ornamentos bizarros, chifres e guizos de bobo. E são as bandeiras, os cachecóis, as faixas, as gaitas, tudo em nome de uma ilusão de adesão, de uma pretensa pertença, de uma gigantesca comunhão com ídolos mercenários e milionários que nenhum laço afectivo liga ao clube e, menos ainda, aos adeptos. Que pensará deste carnaval um jogador que ganha vinte ou trinta mil contos por mês? Jogador que actua hoje no Porto, amanhã estará no Sporting, a seguir no Benfica? Que quimeras, que motivações levam o português médio, de emprego precário, a contribuir com dinheiro para clubes geridos por dirigentes de integridade tantas vezes duvidosa, a entregarem-se de corpo e alma àquelas celebrações surrealistas?
Que frustrações, que desesperanças, que recalcamentos se escondem por baixo das pinturas e dos bonés com chifres ou guizos? Será, porventura, o fascínio do futebol que, de forma insólita, discutível, mas sempre apaixonante, ajuda a esquecer angústias e desencantos.

A televisão, a rádio e os jornais só fazem eco de palavras estudadas, de discursos estereotipados e monocórdicos dos ídolos. Mas o que eles realmente pensam e dizem em privado, do alto dos seus milhões, isso os ingénuos adeptos não sabem. Nem sonham…

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

NOVENTA E TAL CONTOS, 67

O tio Nuno

António Cagica Rapaz

Ao Luís Filipe

Os rapazes da minha geração foram à catequese na igreja de cima, com o padre João, fizeram a comunhão solene, alguns a confirmação ou crisma, e construíram um ideal de vida assente na família, com a mística das novenas, a Festa das Chagas, a procissão imponente e comovente, o pitoresco profano dos santos populares e a ternura do presépio envolto em cânticos celestiais na missa da meia noite.

A família não se compra como as figuras do presépio que construíamos com cortiça das armações e o musgo do ribeiro. Bem teria gostado de ter tido uma família com muitos irmãos, primos, avós, gente boa e amiga à volta da mesa, ao pé da chaminé. Mas não tive. Quis, porém, o destino que tivesse vivido, em épocas e lugares diferentes, junto de famílias à imagem da minha idealização.

Durante alguns anos, na minha adolescência, na noite de Natal, fui à missa do galo e partilhei a consoada em casa do senhor Nuno Cardoso que era, para todos nós, o tio Nuno, um homem maravilhoso, de rara qualidade, bondoso, gentil, generoso, tolerante, de gosto apurado e com uma pontinha de malícia deliciosa.

O seu presépio era um universo de harmonia, mesura e poesia, numa recriação inspirada no amor que punha em cada gesto. Naquela noite, o tio Nuno era o Pai Natal que tinha uma prendinha para cada um de nós. Mas a dádiva maior era a sua amizade, delicada e pura, o seu sorriso e a sua bondade.

Durante anos tive a felicidade da sua convivência, em particular na Cotovia, em domingos inesquecíveis iluminados pela espiritualidade da sua presença, do seu fino humor, da sua irreverência benigna.

O tio Nuno deixa-nos uma recordação luminosa, o apurado sentido estético e ético da existência, a suavidade do trato e a pureza de sentimentos. Com o tio Jojó e a D. Stella, formava uma trindade maravilhosa.

Quando passardes no largo da igreja de cima, olhai as janelas da casa de esquina. Ali viveu um homem admirável que partiu na Primavera de 1976. Treze dias depois foi-se-lhe juntar a minha mãe que tanto apreciava a sua companhia nas tardes da Cotovia. Quem, como ele, era bom, generoso e gentil, só podia partir na Primavera, tinha de ser em Abril...

1982

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

AO REMINHO PELA BORDA D'ÁGUA, 68

Elegância no falar*
António Cagica Rapaz
A minha mãe tinha uma caligrafia admirável que costumava designar por letra gótica. De facto era bonita, elegante, sem demasiados floreados, um regalo para a vista. Não sei se foi aplicação e esmero se foi o receio das palmatoadas da dona Beatriz Palmela, o que sei é que a dona Amália escrevia que era um primor.
Bem também, embora com outro estilo, escreve a minha tia Lucinda, não só quanto à forma mas igualmente quanto ao fundo, toda ela sensibilidade e poesia acompanhadas por um temperamento vibrante e apaixonado, mulher de pincel e espada, artista na alma, dedos de fada.
Eu bem fui aluno da dona Beatriz mas a minha caligrafia é pobrezinha, pouco prendada, mediocridade que não vos é possível observar nesta letra de imprensa, capa que me salva.
Mas letras são tretas e cada um de nós tem à sua disposição as 23 letras do alfabeto que permitem milhões de arranjos e composições. Temos, além disso, dicionários carregadinhos de palavras, temos gramáticas e prontuários, selectas e sebentas, todo um arsenal capaz de nos levar a escrever coisas de belo recorte estilístico, com metáforas aos montes e alegorias a dar com um pau da roupa.
O pior é o resto, é a maldita folha branca que olha para nós a gozar, desafiando-nos para descobrir uma ideiazinha, um assunto, um tema a desenvolver. Que vou eu arranjar, inventar desta vez?
Começo a olhar à minha volta e de repente lá surge ao longe, sempre ao longe, um esboço de ideia.
Esta é a quem me ocorreu e que vos estou agora a expor, falando de pessoas que falam ou escrevem bem.
Outras há que nem escrever sabem e que no entanto são inteligentes, sublimes, possuem uma riqueza interior espantosa, um vocabulário rico, saboroso, variado, que nos ensinam coisas admiráveis a cada passo. Sobretudo aprecio-as quando falam com imagens coloridas, expressivas, enraizadas na nossa cultura ancestral, quando vão buscar essas imagens à nossa terra, ao nosso mar, às coisas boas, à nossa herança colectiva, recordações, evocações, nomes, situações, piadas, repentes, ditos, contos da noite velha, mas coisas nossas, que nos tocam cá sentro, que nos sabem a mar, que nos sabem amar, que nos aquecem a alma.
No campo fala-se de forma diferente, «parece mintira», como diz o António do Reza que tem lenha (salvo seja) que é um amor. O António é uma enciclopédia de frases espirituosas, ditos e trocadilhos, um verdadeiro jogral. Quando canta (o que é raro) a caldeirada à portuguesa é um hino nacional em lume brando. É um regalo ir à Cotovia comprar lenha ao António porque a sua melodia verbal é uma delícia.
O irmão, o Zé do Reza, não gosta de favas e é pena. Esta alusão é uma piscadela de olho para a Carmelinda e para o nosso Jorge que foi o maior trovador, o filósofo mais fino que conheci neste perímetro saudoso.
Ora, onde é que eu ia? Ah, nas diferenças entre o falar do campo e o dos pexitos. É de facto outra coisa, o ritmo da frase, a musicalidade, o sotaque, o acento, no campo é outra coisa. Não vou enfiar por aí, é tema para os amantes da linguística e tenho mais que fazer. Em tempos fiz um trabalhinho jeitoso com alguma ajuda do mestre Rafael Monteiro (outro filósofo, outro saber) e que me foi encomendado pelo muito ilustre professor Dr. Lindley Cintra, no ano da graça de 1969.   
Nesse tempo tive o privilégio de ter sido aluno do maravilhoso contador que era Vitorino Nemésio e bem me lembro como era bom ouvi-lo. Era um deleite, um encantamento, as palavras certas, vivas, encadeadas, coloridas, agrupadas em frases perfeitas, tudo fácil, tudo simples, tudo bem feito, como dizia o meu compadre Alves dos Santos que continua a ser uma referência no domínio do esférico e da língua portuguesa.
Ora as línguas não são estáticas nem estátuas de mármore. Nós damos à língua e a língua dá-nos, com o tempo, palavras novas, expressões diferentes, mais ou menos interessantes, mais ou menos úteis, mais ou menos felizes. Mas surgem, é assim, acontece, é inevitável.
Hoje parece-me estar a língua portuguesa doente, atacada pelo vírus dos brasileirismos que nada de valorizante nos trazem. Nada de gratificante, como se ouve agora dizer, a torto mais do que a direito. Paralelamente vão aparecendo termos diferentes para exprimir as mesmas ideias ou conceitos que outras palavras já exprimiram até melhor, de forma mais justa e apropriada. De repente começou a dizer-se postura em vez de atitude quando, no sentido habitualmente buscado, o melhor é utilizar atitude já que postura se refere mais ao físico do que ao mental.
O mais chocante não é tanto a imperfeição relativa do termo agora utilizado, mas sim a verdadeira inundação, a diarreia verbal com postura para aqui, postura para ali, toda a gente a repetir como papagaios uma moda que alguém lançou talvez para se distinguir, para se elevar através do que julga ser um discurso diferente, moderno, na crista da inovação.
Com esse vieram protagonizar, atempadamente, implementar, potenciar, indiciar, potencializar e outros. Alguns não existem sequer na língua portuguesa como o atempadamente que nenhuma falta fazia já que sempre se disse a tempo e horas, oportunamente, em devido tempo, na altura própria, enfim, mil maneiras que dispensavam esta barbaridade presunçosa, tão inútil quanto postiça.
É a minha opinião, apenas isso e quem não concordar pode ir queixar-se à Capitania, ao Posto de Turismo, à porta da praça ou ao largo do Canino. Desde que o faça «atempadamente»!
Naturalmente a língua tem de evoluir. O Mundo muda, altera-se, não sei se progride mas avança, surgem coisas, ideias, objectos, técnicas, conceitos novos e por isso é natural que surjam também neologismos. Pirosa é a repetição cansativa, monocórdica, macaqueada, de pretensas inovações por pessoas que julgam adquirir um estatuto mais elevado quando dizem indiciar em vez de revelar, sugerir, mostrar, deixar entrever, etc. Indício existe e é correcto, indiciar não sei nem me interessa ir ao dicionário verificar. Até pode ser que exista mas recuso-me teimosamente a utilizá-lo porque me desagrada o facto de ouvir tanta gente a dizer apenas, sempre e só indiciar deitando para o lixo todas as outras formas de exprimir a mesma ideia. É pedante, é postiço e sobretudo a nossa língua sai mutilada, perde muito mais do que ganha. Ninguém hoje diz que o dia está lindo, resplendente, maravilhoso, deslumbrante, fabuloso, etc. Hoje, para qualificar tudo o que tem sinal positivo só se diz óptimo. Só. O resto vai fora, fica no saco e desta forma o nosso vocabulário fica mais pobre, mirrado, reduzido a expressões simples, telegráficas, sintéticas, esqueléticas, despidas de cor e sabor, feitas de plástico. E isso não é óptimo, desculpem lá.
Há poucos anos um dirigente desportivo teria dito a propósito dos jogadores: – «vamos acompanhar a evolução destes rapazes para os ajudarmos a aperfeiçoar as qualidades que revelam».
Hoje, qualquer adjunto do técnico auxiliar do treinador principal dirá com ar convencido: «A equipa técnica vai monitorizar o itinerário do grupo de trabalho por forma a potenciar as potencialidades que indiciam».
Toma lá que já almoçaste, quem fala assim não é gago!
Tento imaginar o mestre Adelino nos dias de hoje, na sua barbearia, e não sei se ele alinharia nesta verborreia de plástico.
A verdade é que não acredito que o mestre Adelino pusesse a sua «ténica» de retórica ao serviço destas macacadas. Sim porque, prontos, não sei se, prontos, ele, prontos, estaria pelos ajustes…
Boas são as nossas expressões alegóricas, típicas, bem enraizadas na nossa terra, na nossa vila, é o mar ao bote, o mar da névoa, o arrebater como uma chaputa, o safa já a giga e tantas outras.
Boa é a tradição oral, os ditos, as expressões, as frases feitas que nos ficaram e que se adaptam, se encaixam, nos vêm à memória a propósito desta ou daquela situação. São em geral saborosas, expressivas e impressivas, ás vezes picantes, muito ligadas a pessoas, acontecimentos e coisas que são nossas, que nos são próximas, que nos dizem muito, que mexem connosco, têm o nosso cheiro, a nossa marca, são cá das nossas, em suma.
Da minha mãe ficaram-me inúmeras frases, historietas, quase provérbios. A minha irmã transmitiu ao marido e aos filhos e hoje o João Pedro sabe o que teria dito a avó se lhe falassem em meias.
A Judite até se ruça quando lhe falam em andorinhas porque ela conservou, tal como a minha tia Lucinda, essa herança, essa memória colectiva que outras famílias possuem também, felizmente.
Não creio que o meu tio Justino aprovasse a «postura que indicia potencialidades abrangentes». Imagino que, se ouvisse fraseado tão oco e postiço, pretensamente moderno e elitista, ele remataria jocosa e filosoficamente: – Vai cagar, vai!
É português, está no dicionário e, com toda a franqueza, às tantas é o que apetece responder.
Que me perdoem as almas mais sensíveis, os espíritos mais delicados, mas por vezes, de facto, sabe bem dizer. E fazer.
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*Publicado originalmente em O Sesimbrense.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

NOTAS & NOTÍCIAS, 7

A banhos
Após esta charla à borda d'água, e porque a dita está "à maneira", Boa Noite, Ó Mestre! vai a banhos e volta em Setembro.